[Irmãos, dentre os textos mais curiosos que já li sobre o tema (sim, li muito lixo, muita heresia e algumas coisas boas, outras provocativas), considero o texto abaixo instigante à reflexão.]
Quem é Satã?
Pergunta:
Caro rabino Singer,
Em novembro de 1996, quando você esteve em Buffalo (NY, EUA), no período adicional de perguntas e respostas, indagaram sua opinião sobre os anjos, e especificamente sobre Satã. Fiquei aturdido com sua resposta, e ainda mais surpreso pelo fato de os demais rabinos presentes não terem participado do debate.
Em sua explicação sobre Satã e os outros anjos caídos, você atribuiu a criação do mal a D-us, tornando-o assim responsável pelo mal. Há pelo menos 87 referências à santidade de D-us apenas em Levítico! Em [Lv]11.44 D-us diz: “Eu sou Santo”. A santidade não significa a ausência de pecado? Existem muitas passagens das Escrituras que comprovam o ódio de D-us pelo pecado (mal), e sua intolerância para com ele em sua presença. Então, como se pode atribuir o mal a D-us? Interesso-me pela base bíblica que apoia sua afirmação.
Possuo um entendimento razoável do judaísmo e jamais li nada que considerasse sua conceituação algo tradicional.
À espera de sua resposta,
Alguém que procura a verdade.
Resposta:
Os rabinos mencionados por você passaram a vida toda imersos no estudo das Escrituras judaicas e também da literatura religiosa do judaísmo; desse modo eles não ficaram “aturdidos” pelo judaísmo ensinado em Buffalo naquela noite, como aconteceu com você.
Por que os rabinos não ficaram desnorteados por esses ensinos judaicos a respeito de Satã? Porque as Escrituras hebraicas declaram de forma explícita que o Todo-Poderoso dispõe o bem e o mal, criados por ele, diante da humanidade a fim de conceder o livre-arbítrio à sua criação primordial. Lê-se em Deuteronômio 30.15: “Vê: eu [Deus] coloquei diante de ti neste dia a vida e o bem, a morte e o mal”.
Em Isaías 45.7, o profeta descreve o plano da criação divina ao relatar: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”.
Eu não inventei esses versículos, tampouco os adulterei. A bem da verdade, a tradução que usei nas citações acima é a King James Version, uma versão da qual não se pode afirmar, sem alguma dificuldade, que se trata de uma aliada da fé judaica.
Esses versículos edificantes destacam um ensino bíblico fundamental: o equilíbrio espiritual perfeito entre o bem e o mal no mundo que confronta toda alma indagadora. Esse é o plano divino e soberano do Todo-Poderoso para a criação: obtém-se a virtude pela decisão pessoal de se desviar do mal e escolher o bem.
Isaías 45.7 e Deuteronômio 30.15, porém, apresentam um problema teológico considerável para os cristãos que afirmam não ser Deus o criador de Satã, o anjo do mal. Segundo a doutrina cristã, Satã era um anjo da patente mais elevada que, mediante um ato de desafio espiritual e desobediência sem reservas, tornou-se o principal adversário e caluniador de Deus, e a personificação do mal neste mundo. Na teologia cristã Deus jamais criou o mal; ele é apenas o autor da justiça e da perfeição, como você assevera em sua pergunta. Portanto, Deus jamais teria criado algo tão sinistro quanto o próprio diabo. Em vez disso, a impiedade obstinada de Satã resulta de sua rebelião espiritual.
Apesar de esta doutrina cristã bastante disseminada possuir muito em comum com o dualismo pagão do zoroastrismo persa — do qual nasceu —, ela é totalmente estranha aos ensinos da fé judaica e às palavras das Escrituras judaicas. De fato, o ensinamento cristão de que Satã foi projetado originariamente por Deus para ser um anjo bom, mas, em um ato de desafio absoluto, deixou de agir como Deus o planejou, sugere que Deus tenha criado algo imperfeito ou defeituoso.
Para a crença judaica, o propósito expresso no fato de Satã seduzir o homem e afastá-lo de Deus não causa nenhum problema, pois Satã é apenas um agente divino. Como servo do Todo-Poderoso, Satã cumpre fielmente a vontade divina de seu Criador enquanto realiza todas as suas tarefas.
Satã é um dos muitos anjos mencionados na Bíblia. O equivalente hebraico da palavra anjo é mal’akh (“mensageiro”). O mesmo significado é atribuído à palavra portuguesa por derivar-se do vocábulo grego angelos, que também significa “mensageiro”. Em toda a Bíblia, anjo significa o mensageiro de Deus que cumpre a vontade do Todo-Poderoso. Inexiste exemplo nas Escrituras judaicas em que qualquer anjo, incluindo-se Satã, que se oponha à vontade de Deus.
Em nenhuma parte da Bíblia isso é mais evidente que no livro de Jó. No primeiro capítulo, Satã surge com os outros anjos diante de Deus e sugere que a fidelidade constante de Jó não suportaria a dor em nível pessoal e a destituição completa. Satã, a seguir, pede a Deus uma chance para testar a virtude de Jó. O Todo-Poderoso lhe concede o pedido, mas delineia de forma meticulosa a linha de atuação de Satã — o que ele pode e não pode fazer — ao testar Jó. Satã, obediente, segue as instruções de seu Criador. Jó é provado de imediato e, no terceiro capítulo, sua luta tem início. Ele questiona o Criador por sua existência e, em um momento de desespero, expressa vocalmente o desejo de ter perecido no ventre de sua mãe. Contudo, ao fim desta narrativa bíblica sem igual, a virtude de Jó prevalece sobre o tormento incessante causado por Satã.
Ao passo que o triunfo espiritual e pessoal de Jó seja uma impossibilidade teológica em termos cristãos, em termos judaicos ele se destaca como a incorporação do programa divino de salvação da humanidade. Em Deuteronômio 30.15, a Torá atesta esse princípio e em Isaías 45.7, o profeta reverbera essa passagem ao declarar que o Todo-Poderoso cria o mal.
Entretanto, esse princípio bíblico é aparentemente muito problemático para os tradutores cristãos da versão bíblica NIV (New International Version). Eles, é claro, reconheceram que a declaração da Bíblia de Deus criando o mal questiona um dos ensinamentos mais acalentados da cristandade sobre a salvação. Como a igreja pode insistir na depravação total do homem quando o seu Deus o colocou livre no mundo para escolher entre o bem e o mal? Como a igreja sustém a doutrina da eleição e da predestinação se o livre-arbítrio é uma expressão legítima do ser humano? Como os cristãos podem afirmar que Deus não criou o mal se as Escrituras judaicas dizem com toda a clareza o contrário?
É compreensível que os tradutores da NIV tenham achado por bem alterar as palavras do profeta ao verterem a apalavra hebraica ofensiva ra' por “calamidade” no lugar de traduzi-la de forma correta por “mal”. Assim, a versão bíblica NIV traduz de modo equivocado Isaías 45.7: “Eu formão a luz e crio as trevas, trago prosperidade e crio a calamidade; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”.
O vocábulo “calamidade” inserido pela NIV é tão ambíguo que o leitor menos preparado poderia chegar com facilidade à conclusão de que ele se refere a terremotos e furações. Este entendimento distorcido, criado pela tradução errada da NIV, oculta com eficácia a mensagem original de Isaías. Como já mencionei, a KJV (King James Version) traduz este versículo de maneira correta e verte a palavra hebraica ra' por “mal”.
E aqui está o ponto final. Muitas vezes os cristãos apontam para Isaías 14.12 como a referência bíblica para apoiar seus ensinos sobre a queda final e irreversível de Satã, que deu fim à carreira pregressa, longa e bem-sucedida desse anjo caído. Alegam que a menção de Isaías à “estrela da manhã” se refere ao destino de Satã, no tempo do fim, quando ele será lançado no lago de fogo, como está escrito no capítulo 20 do livro do Apocalipse.
Há, porém, dois problemas sérios com essa afirmação. Primeiro: se os cristãos afirmam que a “estrela da manhã” é uma referência a Satã, como explicar Apocalipse 22.16 — texto em que Jesus também é chamado a “estrela da manhã”? Em segundo lugar, mesmo a leitura superficial do capítulo 14 de Isaías revela que a “estrela da manhã” mencionada em Isaías 14.12 é uma referência a Nabucodonosor, o ímpio rei de Babilônia, e não a Satã. Em 14.4, o profeta nomeia de modo explícito o rei de Babilônia como o objeto da profecia: “Então proferirás este provérbio contra o rei de Babilônia, e dirás: Como já cessou o opressor, como já cessou a cidade dourada!”.
Em todo este capítulo de Isaías, e também no anterior a ele, o profeta prediz o surgimento e a ruína desse rei arrogante que usaria seu poder desenfreado para saquear Jerusalém e destruir o templo; contudo, perto do seu fim, sofreria uma queda cataclísmica. Em 14.12, Nabucodonosor é comparado ao planeta Vênus, pois sua luz ainda é visível durante a manhã e sumindo, porém, com o nascer do sol. À semelhança da luz de Vênus, o reino de Nabucodonosor brilhou de forma intensa por um breve período — como predisseram os profetas —, sendo mais tarde eclipsados pela nação de Israel, cuja luz perdurou e sobreviveu a essa nação arrogante que a atormentou e exilou.
Atenciosamente,
Rabino Tovia Singer