2011/01/05

Judas era um dos eleitos?

Rogério Portella

Sim. Eleito para a perdição! A respeito de Judas, Jesus também disse:

"Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse" (Jo 17.12).

Além disso, ouçamos a Palavra de Deus sobre os réprobos:

"Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. [...] Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?" (Rm 9.18,21).

"Porque se introduziram alguns homens ímpios , que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. [Eles] já estavam escritos de antemão para este mesmo juízo" (Jd 4).

"Jeová fez todas as coisas para atender aos próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal" (Pv 16.4)



2010/10/29

Em defesa da predestinação segundo o Evangelho (SEA-TULIP): Parte 1

Robert Higby

Introdução

Este artigo defenderá a necessidade de uma base confessional mais ampla acerca da predestinação segundo o Evangelho que a comumente definida pelos 5 pontos do calvinismo. O calvinismo reducionista de 5 pontos (TULIP) foi formulado como resposta aos Cinco artigos (de 1610) dos remonstrantes (seguidores de Jacó Armínio). No momento da assembleia, quando o Sínodo de Dort formulou o TULIP, o tema da contradição dos cinco artigos foi preeminente para dar continuidade a qualquer semelhança com o que havia ocorrido na Reforma. Apesar de o Sínodo de Dort ter obtido uma grande vitória a favor da verdade do evangelho em seus dias, a pertinência dessas conquistas é quase completamente ignorada hoje. O surgimento do evangelicalismo — com os ensinamentos muitíssimo populares de Andrew Fuller — destruiu em grande parte o impacto prático do Sínodo de Dort. Ainda permanece uma adesão confessional insincera na correção dos cinco pontos do TULIP, pois durante séculos os calvinistas reformados eliminaram a predestinação de todos os acontecimentos em sentido absoluto, positivo, duplo e causativo. Elas aceitam os arminianos como irmãos plenos em Cristo e coparticipantes do evangelho. Isso acontece por causa do ensino comum dos dois grupos a respeito da doutrina da predestinação passiva do pecado (sem causá-lo). As duas vertentes compartilham e promovem as doutrinas do amor geral de Deus, graça comum, o mero conhecimento de antemão da rebelião — permissivo e não causador —, e a livre oferta do Evangelho aos réprobos.

A posição apresentada aqui é designada “8 pontos da predestinação segundo o Evangelho”, e não “calvinismo de 8 pontos”. Já é o tempo de a defesa da verdade (2Pe 1.12) basear-se na autoridade da revelação da Palavra de Deus no Evangelho apostólico, e não nos escritos de qualquer expositor bíblico do passado — meste tendo este adotou alguma forma do conceito da predestinação. Alguns usam o nome de agostinismo para descrever alguns conceitos professos a respeito da predestinação. Quão preparados estamos para ter nossas convicções designadas pelo nome de Agostinho? Tampouco elas devem receber o nome de Calvino ou de qualquer outro mestre que tenha exposto ensinamentos cismáticos ou antievangélicos.

Os 5 pontos são uma tentativa de esclarecer o desenrolar plano da salvação no contexto do tempo. Entretanto, essas declarações confessionais são fracas no que tange ao tema mais amplo de como a salvação e a reprovação foram concebidas e implementadas a partir da perspectiva divina que transcende ao tempo. Assim precisamos de uma expansão dos pontos fundamentais relacionados ao passado a fim de incluir a realidade maior de como Deus se relaciona em caráter pessoal com a determinação da história da redenção — desde sua concepção no tempo até a eternidade futura. A adição dos pontos do supralapsarismo (SupralapsarianismS), da justificação eterna (Eternal JustificationE) e do decreto ativo (Active DecreeA) aos cinco pontos históricos do TULIP proverá uma base nova e mais abrangente para a defesa da verdade do Evangelho nas gerações futuras. Estes artigos apresentarão uma confissão acerca da predestinação segundo o Evangelho que rejeitará de modo permanente, e se oporá, ao fullerismo e às heresias antirreformadas.

Supralapsarismo

Durante séculos os mestres do “calvinismo” têm se unido ao coro arminiano no cântico sobre o caráter extremamente complicado da diferença entre o supralapsarismo e o infralapsarismo. Diz-se que ela constitui algo ininteligível ao membro comum da igreja. Existe uma única explicação possível para este fenômeno: os mestres reformados odeiam a ensino supralapsário e não desejam que sua essência seja conhecida e adotada. A diferença é simplesmente etimológica. Supralapsário significa “superior” (anterior) ao lapso; infralapsário significa “inferior” (posterior) ao lapso. O “lapso” é referência ao grande pecado de Adão (humanidade) no jardim do Éden. A questão diz respeito ao propósito divino da redenção ou da condenação de todo descendente de Adão: ele contempla e admite o lapso e a culpa associada da humanidade para a condenação como uma realidade já estabelecida? Caso a resposta seja “sim”, então o propósito divino da graça é infralapsário. Se for “não”, então o propósito divino da graça é supralapsário.

A posição infralapsária se baseia no conceito agostinista da “queda” dos anjos e da humanidade do estado de perfeição e de livre-arbítrio autônomo (cf. A cidade de Deus, O enchiridion). Apesar de muitos infralapsaristas afirmarem que a queda foi determinada de alguma maneira por Deus, eles são unânimes em asseverar: 1) Adão foi criado completamente livre de qualquer impulso de rebelião, e 2) Adão escolheu com seu livre-arbítrio autônomo se rebelar contra Deus, a despeito de não possuir nenhuma tendência ou desejo de se rebelar. Agostinho em A cidade de Deus também expõe com muitos detalhes sua doutrina de um Satanás criado originariamente com perfeição absoluta e que se rebelou sem nenhuma propensão para fazê-lo. Essa interpretação não foi desafiada por católicos romanos e protestantes até o dia de hoje. O Paraíso perdido (de John Milton) agraciou-nos com toda uma obra baseada nas especulações de Agostinho. É importante destacar que os acadêmicos contemporâneos não encontram essas doutrinas no judaísmo do segundo templo. No contexto da discussão sobre os ensinos de Cunrã acerca da universalidade do pecado humano, Daniel Falk observa:

… nas Hodayot não havia especulação sobre a origem da natureza pecaminosa dos seres humanos. Em vez disso, os pontos dessas declarações no contexto dos hinos servem para destacar a insignificância humana diante de Deus. [Editors D.A. Carson, Peter T. O’Brien, Mark A. Seifrid, “Justification and Variegated Nomism”, Vol. 1: The Complexities of Second Temple Judaism, Baker Academic, Grand Rapids, 2001, p. 28.]

Essa conclusão apenas exemplifica o pressuposto não questionado da doutrina agostinista do pecado original — como única conclusão possível para qualquer estudante da revelação divina, agora ou em qualquer tempo passado. No entanto, a doutrina, em qualquer exposição sistemática, era desconhecida antes de Agostinho; havia apenas fragmentos de pouca similaridade em diversos escritos sectários. Falk percebe com nitidez sua ausência nos manuscritos de Cunrã e se recusa a admitir a doutrina alternativa da origem do mal claramente ensinada neles. Em 1QH Col. 6—Col. 12 e 1QS Col. 3—Col. 4, a origem do pecado em todo espírito (de anjos ou humanos, eleitos ou não eleitos) é claramente atribuída à criação direta de Deus com o fim de exaltar sua glória.

A doutrina da queda dos anjos e o homem caíram de seu estado originário de perfeição absoluta é um paradoxo total. Ele não pode ser explicado racionalmente, de modo que as contradições inerentes a ele são consideradas “mistérios” e não se permite a nenhum ser humano inquiri-las. A conclusão resultante é uma teologia da predestinação paradoxal — o infralapsarismo — que promove uma síntese inexplicável da preordenação divina e o livre-arbítrio (autônomo) humano.

Outro ensino que conduz o cristianismo institucionalizado ao campo infralapsário é o conceito de “satisfação” decorrente da expiação de acordo com o ensino de Anselmo. Ele é adotado integralmente por católicos romanos e protestantes. A diferença entre “satisfação” e “propiciação” é crucial para entender o contexto do infralapsarismo versus o supralapsarismo. A teoria da satisfação ensina que Deus deve a expiação realizada por Cristo à lei externa a si mesmo, e cujas demandas ele deve satisfazer. Em contraste, a propiciação (Rm 3.25; 1Jo 2.2; 4.10) no NT significa apenas que Deus propôs aplacar a sua ira justa contra a rebelião e o pecado de seus eleitos ao executar sua ira contra si mesmo ma pessoas de Jesus Cristo. Os propósitos de Deus não objetivam satisfazer algum tipo de lei eterna que governe suas ações; em vez disso, eles são direcionados ao exercício da graça em Cristo a favor dos quais ele propôs criar indignos — para a exaltação de sua graça! Nos propósitos eternos de Deus, a graça é superior de todas as formas à lei. A lei foi criada por Deus no tempo para aumentar o conhecimento do pecado e intensificar a culpa associada à rebelião contra ele (Rm 5.20). Não é que Deus deva qualquer de suas ações ao infralapsarismo é um terreno escorregadio que se rende à teoria arminiana do livre-arbítrio e em última instância redunda em puro ceticismo. Se Deus estabeleceu a origem do pecado para exaltar sua graça na redenção dos eleitos e sua ira na condenação dos réprobos, a doutrina infralapsária sucumbe com os ensinos da “queda” do Adão perfeitamente justo e a teoria da expiação como satisfação. O ensino supralapsário da soberania divina absoluta na dispensação da graça e da ira — que transcende qualquer bem ou mal previsto na criatura (Rm 9.6-24) — é a única conclusão possível para os que amam a verdade do Evangelho.



2010/07/22

Uma palavra sobre a oração

"Ao contrário do que fomos ensinados, a oração não muda o plano ou o coração de Deus; muda o nosso coração, cancela o nosso plano e implementa o de Deus. A oração não é uma folha que pedimos para Deus assinar embaixo e então escrevemos o que queremos; a oração é sim uma folha que assinamos e dizemos a Deus: 'Agora, Deus, escreve o que queres!'."
(Milton Almeida, via Facebook em 22/7/2010)

2010/07/09

A Bíblia: pedra de tropeço

Vincent Cheung


“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar os gentios pela fé, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em você” (Gl 3.8).
Eis o caso mais curioso de personificação. No relato de Gênesis, Deus falou com Abraão, mas neste versículo afirma-se ter sido a Escritura seu interlocutor — isto é, a Bíblia, o próprio livro. A palavra “Escritura” faz referência a algo escrito, mas ainda que as palavras de Deus tenham sido imediatamente registradas em forma escrita, elas não se encontravam sob essa forma quando ele as pronunciou. Todavia diz-se aqui que a Escritura fez a promessa a Abraão.

Atribuem-se duas características divinas à Escritura. Primeira, Paulo escreveu que a Escritura “previu” algo. E repare que o apóstolo faz distinção entre a Escritura e Deus — a Bíblia previu que Deus faria alguma coisa. No entanto, não teria Deus previsto o que ele mesmo faria? A personificação é total. Ele faz referência à Bíblia como algo vivo, pessoal, e divino. Segunda, Paulo escreveu que a Escritura anunciou, ou pregou, o evangelho a Abraão. A promessa proveio do próprio Deus. Esta não foi uma declaração feita por um servo ou mensageiro, mas a cláusula inicial de uma promessa. Foi Deus que a fez, e apenas ele poderia fazê-la. No entanto aqui se diz quer a Bíblia a fez.

Extraem-se disso quatro inferências. A primeira é que um dos princípios essenciais da fé cristã é o intercambiamento entre Deus e a Escritura relativa a diversas intenções e propósitos. Por exemplo, Deus e a Escritura devem ser considerados idênticos em relação à verdade e autoridade. A segunda, em alguns contextos é absolutamente correto referir-se à Escritura como se refere a Deus. De fato, espera-se isto, e até se exige, de todos os cristãos. Deve ser natural dizer: “A Bíblia ordena”, “A Bíblia proíbe” ou “A Bíblia prediz”. Devemos suspeitar de quem descobrirmos fazendo uma distinção deliberada e consistente, a partir da análise de suas declarações, entre Deus e a Escritura. Terceira, a formulação ou aplicação da doutrina da Escritura que não incorra na acusação de bibliolatria por parte de algumas instituições provavelmente não acompanha o apreço que a Bíblia tem de si mesma e é, portanto, indigna de afirmação. Quarta, se a Escritura conta com o conhecimento de antemão divino e faz pronunciamentos divinos, então ela pode ser caluniada e blasfemada. Qualquer declaração feita a respeito da Bíblia que não a identifique com a própria verdade, conhecimento e autoridade de Deus deve ser considerada caluniosa e blasfema. Deve-se tratar ofensor de forma congruente com seu ato — isto é, ele deve ser removido de todos os ofícios eclesiásticos, interrogado na presença da igreja, e sem o a retratação e o arrependimento plenos, expulso das dependências da igreja e impedido de se relacionar com ela.

Temos consciência de que a mensagem da Bíblia ofende os não cristãos. No entanto, sua própria existência também é uma pedra de tropeço para eles. Se eles cressem em Deus, jamais esperariam que ele lhes falasse por meio da Bíblia, isto é, por intermédio de um livro. Naamã disse ter pensado que Eliseu poderia dirigir-se a ele, invocar seu Deus, e passar a mão sobre sua lepra e curá-lo. É claro que Deus poderia ter agido desse modo, ainda que ele não tenha concedido a Naamã o que ele esperava. Contudo, um servo sábio raciocinou com Naamã, e ele se submeteu às instruções do profeta e foi curado. Caso os não cristãos esperem que Deus faça surgir uma mão e escreva uma mensagem diante deles, ou lhes fale desde os céus com uma voz trovejante, ou esperem que Cristo apareça em uma luz ofuscante, dizendo: “Tolo, tolo, por que me persegue? É inútil resistir ao aguilhão”. O quê? “É inútil você continuar batendo a cabeça na parede”.

Deus, a bem da verdade, fez todas essas coisas, e contrariando muitos teólogos, ele ainda o pode fazer se assim desejar. Não existe nada na Bíblia que nos garanta que ele sempre consente com a doutrina cessacionista. Mesmo assim, na maior parte dos casos, a verdade de Jesus Cristo não alcança dos homens por intermédio do que eles consideram maneiras espetaculares. Em vez disso, Deus lhes entrega um livro, e diz de fato: “Leia-o. Creia nele e viva. Descreia dele e queime no inferno”. Isso é de aceitação muito difícil, quase impossível para os não cristãos. Deus designou este obstáculo para expor as pessoas destinadas ao fogo do inferno, e para excluí-las da vida eterna. Não se trata da ocultação da divindade da Bíblia, mas de os pecadores estarem cegos para ela. Como Jesus afirmou, se uma pessoa se recusa a crer em Moisés, então ela se recusará a crer ainda que alguém retorne dentre os mortos para lhe falar. A recusa, por parte dos homens, de dar ouvidos ao Cristo ressurrecto é seu cumprimento cabal. Todavia, Deus desperta a inteligência de seus eleitos para perceber a sabedoria e o poder da Bíblia, e para reconhecer que o livro é idêntico à voz de Deus.

A Bíblia disse a Abraão que ele se tornaria pai de muitas nações, e que por seu intermédio todos os tipos de gente seriam abençoados. A promessa jamais poderia ser cumprida por meio da carne, mas pelo poder de Deus. Ela nunca se tornaria real pela forma do surgimento de Ismael, mas pelo nascimento de Isaque. Todas as nações seriam abençoadas por meio de Abraão, Cristo nasceria, e seu evangelho se espalharia por toda a terra, convertendo multidões à verdade, salvando-as do pecado e do inferno, e lhes assegurando um lugar no céu. Todos seriam unidos por esta única promessa proveniente de Abraão. Judeus ou gentios, homens ou mulheres, ricos ou pobres, eles serão unidos — abençoados por uma promessa — por meio da fé comum em Jesus Cristo.



2010/07/08

E não nos induzas à tentação

[Adaptado de uma mensagem eletrônica.]

Vincent Cheung

No pai-nosso, o que Jesus tem em mente quando diz: “e não nos induzas à tentação”?
Ele tem em mente o que as palavras querem dizer — ele nos diz para pedirmos que Deus não nos induza à tentação. O contraste vem imediatamente a seguir: “mas livra-nos do mal” ou do maligno. As tentações jazem por completo sob o controle de Deus, e é claro que ele induz as pessoas às tentações, como o Espírito conduziu Jesus ao deserto para ser tentado por Satã. Como se lê em Tiago 1.13: “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”; entretanto, ele inicia, sustém e dirige as tentações por intermédio de Satã e de outras “coisas” criadas (como nossos desejos). A distinção é clara: Deus não é Satã, e nossos desejos não são Deus, mas ele os causa e controla a fim de induzir as pessoas ao pecado.

Sabemos que Deus decreta muitas coisas negativas, como doenças e desastres, mas os preceitos divinos nos ensinam a enfrentar as coisas negativas decretadas por ele (orar para ser curado, resistir, consolar outras pessoas etc.). Além disso, Deus também induz as pessoas à tentação; no entanto, o preceito dele é que não desejemos ser tentados, e quando formos, que resistamos à tentação. Isto é análogo ao fato de ser Deus quem decreta a perseguição contra os cristãos, mas isso não implica que devamos nos render ou transigir por causa da perseguição. Em vez disso, o preceito de Deus ordena que permaneçamos firmes.

Deus é o autor do pecado? Sim. Deus é o tentador? Não. Esses dois papéis são diferentes, mas a Bíblia apresenta Deus de forma inequívoca como o indutor à tentação. De fato, isto não o distancia da tentação. Portanto, caso alguém procure por esse distanciamento, não o encontrará. Entretanto, está é uma distinção feita pela Bíblia sem constituir uma tentativa, de caráter metafísico, de distanciar Deus do mal.

E o que haveria de errado em ser o próprio Deus o tentador? Ele poderia dizer a alguém: “Vá matar aquela pessoa”. Qual seria o problema disso? Se ele o dissesse a alguém, esse ato não seria uma tentação, seria um preceito ou uma ordem, que por definição seria moralmente correta e até de cumprimento obrigatório por parte de quem a recebesse. Considere a ordem dada a Abraão para sacrificar Isaque. Caso Deus diga a alguém para matar uma pessoa, isso não será assassinato.

Portanto, a distinção entre o indutor à tentação e o tentador não pretende distanciar Deus do mal — não nos interessamos por isso de forma alguma. Trata-se de uma distinção necessária, pois qualquer coisa que Deus ordene alguém fazer é, por definição, correto e obrigatório. Portanto, ele não pode ser o tentador, pois a tentação é a persuasão ou a sedução para que alguém se desvie do que Deus disse ou sua transgressão. Caso Deus o faça pessoalmente, não se trata de tentação, mas de um preceito e uma ordem moral.


2010/07/07

Resumo da doutrina da Escritura

[Adaptado de uma declaração inédita sobre a doutrina da Escritura.]

Vincent Cheung

A Bíblia consiste nos 66 livros do Antigo e Novo Testamento. Eles foram produzidos por inspiração divina, e coligidos e preservados pela providência de Deus, de forma que operam em conjunto e são mencionados com uma única obra.

A Bíblia é a revelação verbal de Deus. É sua voz. Todas as palavras da Bíblia foram inspiradas e expiradas por Deus. Ele fez homens registrarem as palavras exatas que desejava usar para comunicar seus pensamentos.

A palavra é um símbolo, e um símbolo pode representar uma ideia ou um conjunto de ideias. Portanto, a linguagem humana é suficiente para comunicar qualquer coisa procedente de Deus ou referente a ele. Qualquer limitação deve jazer na capacidade humana de pensar ou processar as ideias comunicadas por Deus. Pelo fato de Deus ter criado o homem à sua imagem, o homem conta com a capacidade de pensar ou processas as ideias comunicadas por Deus.

A Escritura é coerente e consistente. É uma unidade. Cada documento é integralmente coerente, e todos os documentos concordam entre si. Ela não contém contradições lógicas, paradoxos ou antinomias reais ou aparentes. A percepção de uma aparente contradição significa que se trata apenas de uma ilusão — um produto da mente humana —, e não de uma característica do texto.

A Escritura é infalível e inerrante. Da mesma forma que Deus não mente nem erra, a Bíblia — que é a própria voz de Deus e cujas palavras são as próprias palavras de Deus — não mente nem erra. A Bíblia não pode conter, nem contém, erros, quer em relação a questões espirituais, históricas ou de outra natureza. Ela está certa em todas as suas afirmações e inferências. A pessoa que considera qualquer porção da Escritura falível ou errada não tem motivo para se dizer cristã. Depois de ser bastante admoestada e advertida, ela deve ser considerada réproba e excomungada.

A Escritura detém autoridade. Ela é mais que um instrumento, é a própria voz de Deus. Sua autoridade é idêntica à autoridade de Deus. Não há diferença entre um pronunciamento de Deus e um pronunciamento da Bíblia, e não há diferença entre a obediência a Deus e a obediência à Bíblia. Crer em um e lhe obedecer equivale a crer no outro e obedecer-lhe.

A Escritura é perspícua. Ela é de forma geral clara e de fácil entendimento. A Bíblia comunica sua mensagem com eficiência a todos os tipos de homens em tempos e culturas diferentes. Ela se caracteriza pelo fundamento da simplicidade de pensamento e linguagem de tal forma que é possível a qualquer pessoa com capacidades básicas, sem o auxílio de outros homens, lê-la e aprender dela os princípios centrais da fé cristã, incluindo-se o conhecimento necessário e suficiente para a salvação.

A Escritura é suficiente. Ela contém a informação necessária à salvação, ao progresso espiritual e orientações pessoais — todo o necessário para alguém viver de forma plenamente agradável a Deus. Ela contém a informação necessária à cosmovisão completa, o conceito verdadeiro da realidade, do conhecimento, da ética e de outras questões. Revelações extrabíblicas, como visões e profecias, são desnecessárias; no entanto, a Escritura não declara sua cessação. Deus ainda as pode conceder quando lhe aprouver, mas todas as alegações concernentes a revelações extrabíblicas devem ser testadas, e os falsos profetas devem ser excomungados.

A Escritura autentica a si mesma. Ela se sustenta pela excelência e suficiência de seu conteúdo, e independe de promessas alheias. O sistema de crença cristã recebe a Escritura como primeiro princípio. O restante do sistema se segue por meio de deduções válidas. Este primeiro princípio se prova verdadeiro, e todas as proposições válidas, deduzidas dele, também são verdadeiras. Pelo fato de a Escritura ser verdadeira, e visto que ela contradiz e condena todos os outros sistemas de pensamento, a fé cristã é a única religião, filosofia ou cosmovisão verdadeira.


2010/07/05

Seja maldito!

(sermonete)

Vincent Cheung

Se alguém não ama o Senhor, seja maldito! Vocês me ouviram. Se alguém não ama o Senhor independentemente da razão, por não ser cristão, ou por ser alguém que se diz cristão, mas não ama o Senhor — não sendo de fato cristão — seja maldito! Esta é minha teologia. Esta é minha declaração de fé. E esta é minha mensagem para vocês hoje.

Neste exato momento, vocês podem não estar se agradando muito de mim. Imaginem quantos líderes cristãos, pregadores, teólogos, igrejas, seminários, denominações, pais, mestres, políticos e pessoas de todas as esferas da vida denunciariam a mim por esta declaração e atitude completamente anticristãs? Quantas pessoas pegariam a Bíblia para citar passagens contra mim? Quanta gente reclamaria que minha fé é completamente contrária à religião de Jesus Cristo e seus apóstolos?

E isto me diria quantas pessoas se encontram longe de Deus e do contato com a fé cristã, pois estou apenas repetindo o que Paulo diz em 1 Coríntios 16.22. Na verdade, o versículo 21 indica que ele pegou a pena do amanuense para poder escrever esta declaração de próprio punho: “Cumprimento da minha mão, de Paulo. Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja maldito”. Eu, Vincent Cheung, também ponho meu nome nessa declaração. Ela conta com meu endosso pleno. Meu desafio a vocês é se vocês pegarão a pena e assinarão seu nome nela. Ou a fé cristãs não é “cristãs” o suficiente para vocês?

Mesmo sendo a fé cristã a revelação do amor de Deus aos pecadores, sua preocupação principal é sempre a honra de Deus e não o bem-estar e consolo dos homens. Tão logo se reverta essa situação, o cristianismo deixa de existir. Minha declaração inicial é um teste da religião autêntica, um teste de ortodoxia e reverência. E todos os que a rejeitarem ou me criticarem por pronunciá-la são os que falharão no teste.

Se vocês ficaram ofendidos ou envergonhados com essa declaração, se chegaram apensar que não sou cristão por causa dela, e que ela se opõe de forma total ao espírito de Cristo, então há algo muito, mas muito errado com vocês. Vocês estão fora de contato com o que é a fé cristã de verdade, e o que ela ensina de fato. Estão vocês desalinhados como o espírito de Cristo e a religião do Novo Testamento.

No período em que a maior parte da igreja se ocupa com os assuntos dos homens e não com os assuntos de Deus, esta é a única forma de traçar a linha da fé e esclarecê-la. Sim, Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê seja salvo. Sim, quem ama o Filho ama também o Pai, e eles farão nessa pessoa sua morada. Contudo, caso sejamos cristãos também diremos: se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja maldito!


2010/07/04

Redenção: a família de Cristo

Vincent Cheung

“E porei inimizade entre você e a mulher, e entre sua semente e a semente dela; esta lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3.15).
Todas as coisas acontecem pela vontade e pelo poder de Deus — de acordo com seu conhecimento. Com isto quero dizer que um acontecimento se dá apenas pelo fato de ele o ter desejado e causado. Não há poder independente dele ou que compita com ele. Caso não houvesse outro motivo, isto seria necessariamente verdadeiro pelo fato de Deus se revelar como o detentor do controle total e ativo sobre todas as coisas, de modo que se exclui a própria possibilidade de um segundo poder. Seu conhecimento é completo; assim ele conhece todos os acontecimentos, até os pensamentos e os atos humanos. Visto que Deus decide e causa todas as coisas, seu conhecimento está necessariamente ligado à sua vontade e poder. Isto é: ele conhece todos os acontecimentos porque os decide e causa, e conhece seus próprios planos e propósitos.

A queda do homem não foi um acidente. Se o pardal não pode morrer à parte da vontade de Deus, e se o homem é incapaz de tornar o cabelo preto ou branco, então à semelhança de todos os acontecimentos, a queda do homem ocorreu porque Deus a decretou e causou. Isto não significa que o próprio Deus realizou o mal, mas que ele fez o homem realizar o mal de forma soberana e justa. Todas as tentativas de refutar esta posição acabam por diminuir a pessoa de Deus — o soberano por direito e poder —, cujos decretos e ações estabelecem a própria definição de bondade e justiça. Não há padrão maior à parte de Deus, e pelo qual se possa julgá-lo. Não admitimos um padrão para julgar a bondade divina ou para lhe restringir o que é permitido fazer; em vez disso, derivamos o padrão da bondade do aprendizado do que ele pensa e faz.

Assim, a queda do homem foi um passo do plano de Deus. A Escritura ensina que o maior propósito de Deus é glorificar a si mesmo, e que ele o decidiu fazer por intermédio de seu Filho, Jesus Cristo, que resgataria o povo eleito, subjugaria todas as coisas, e entregaria ao Pai um reino de sacerdotes, de verdadeiros adoradores. A fim de cumprir esse propósito, era necessário lançar toda a humanidade no pecado, na morte espiritual e no juízo, para que Deus salvasse alguns por meio de Jesus Cristo.

Este plano de salvação foi revelado, em termos gerais, imediatamente após a queda do homem. Adão era o cabeça da raça humana, e quando pecou, todos os seus descendentes caíram com ele. Desse momento em diante, todo homem e mulher seriam concebidos com a natureza pecaminosa e com a culpa incidente na condenação. Foi nesse ponto que Deus pôs em prática o passo seguinte do seu plano, e declarou a divisão da humanidade. Ele disse que nem todos os homens seguiriam Satã, e que haveria uma linhagem humana que se oporia ao diabo e a seus filhos. Essa hostilidade chegaria ao ponto culminante ao receber o cumprimento final em um homem. No tempo devido, ele nasceria de uma mulher e se tornaria o campeão da linhagem dos justos. Ele salvaria seu povo e destruiria o poder do diabo.

Deus fez acréscimos a essa promessa e a desenvolveu por meio de sua revelação, narrada e registrada por seus profetas; no entanto, a ideia básica foi anunciada, e os que esperavam por ela e criam nela eram declarados membros da linhagem justa dentre a humanidade. Essa mensagem permaneceu inalterada ao longo dos séculos. A diferença era a quantidade de informações disponíveis a seu respeito. Exigia-se de cada geração afirmar o que Deus já revelara até o momento. À medida que os detalhes eram descobertos, tornava-se mais evidente que esse homem seria plenamente divino e humano, e que isso se tornaria possível por meio da encarnação de Deus. A plenitude da revelação foi manifesta em Jesus Cristo, e exposta por seus apóstolos.

Foram feitos muitos acréscimos à declaração inicial, mas a promessa permaneceu inalterada. Desde o princípio, a promessa se referia à vinda de Jesus Cristo para salvar seu povo eleito. Não se trata de um anacronismo, mas de um auxílio para a unidade do nosso entendimento, declarar que todos os crentes na promessa ao longo da história humana, incluindo-se os que creram antes da vinda de Cristo, devem ser chamados cristãos. Desse modo, Hebreus 11 diz que Moisés preferiu sofrer a reprovação por causa de Cristo a usufruir os tesouros do Egito. E Pedro escreveu que o Espírito de Cristo estava nos profetas, e lhes revelou os tempos e as circunstâncias que envolviam a encarnação e o ministério do Salvador. Portanto, da perspectiva da revelação completa, percebemos agora que a humanidade estava dividida entre a linhagem de Cristo e a linhagem de Satã, ou em cristãos e não cristãos.

Esses grupos são as duas famílias que se antagonizam ao longo da história, e esse conflito continuará até a consumação de todas as coisas. A hostilidade não foi diminuída; ao contrário, foi acentuada pela vinda de Jesus Cristo. Ele disse que não veio trazer paz, mas a espada. Ele seria a causa do aumento da rixa entre nações, culturas e familiares. A pregação do evangelho compele os homens à escolha de um lado, ou melhor, revela em que lado eles se encontram. Quando anunciamos o Senhor Jesus, a família de Satã suscita a oposição, mas a família de Cristo é estimulada à fé e justiça, toma suas armas espirituais, e se une à luta para a glória de Deus.


2010/07/03

Transgressão: você morrerá

Vincent Cheung



“E Jeová Deus ordenou ao homem, dizendo: Coma de toda árvore do jardim; mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal, não coma dela; porque no dia em que comer dela, você morrerá” (Gn 2.16,17).

Deus criou o universo, os planetas, a vida vegetal e os animais. Depois disso ele criou o homem e a mulher, e os colocou no Éden para trabalharem no jardim. E Deus lhes deu a ordem de que comessem de toda árvore do jardim, mas não deveriam comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, e se eles comessem dela, com certeza morreriam.

Aqui vislumbramos a essência do relacionamento original entre Deus e o homem. Em primeiro lugar, ele se baseava na comunicação verbal — Deus falava com o homem. Ele falava com o homem usando termos que transmitiam ideias definidas, concretas e abstratas, como identidade pessoal (“você”), o ato de se alimentar, árvores, jardim, conhecimento, bem e mal, tempo (“no dia em que comer”) e morte. Em segundo lugar, este relacionamento era íntimo mas variável. O homem se beneficiava da provisão e da generosidade de Deus, mas ele também agia sob a autoridade divina, que impunha restrições às atividades humanas. O padrão do certo e do errado encontrava-se exclusivamente na autoridade de Deus — não como algo alheio a ele, mas como algo idêntico à sua vontade, e expresso por meio de instruções e ordens.

Algumas tradições teológicas afirmam que a ordem de Deus a Adão envolvia, ou consistia em, uma aliança. Essa aliança compreendia um período de teste para o homem, de modo que se ele se revelasse obediente, herdaria a vida eterna, mas se ele se mostrasse desobediente, herdaria a morte eterna. No entanto, não há indicação de teste nas instruções de Deus a Adão. E inexiste qualquer promessa de promoção a uma vida superior após o período de obediência. Tampouco há qualquer traço do estabelecimento de uma aliança. Essa doutrina é uma invenção humana e deve ser descartada.

De acordo com o relato de Gênesis, Satã assumiu o controle de uma serpente e falou por meio dela, ou ele assumiu a forma de uma serpente e falou. Ele tentou Eva para que transgredisse a ordem de Deus. Eva e o restante da Escritura descrevem mais tarde esse ato como uma tentativa de enganar. Ele mentiu para Eva. As tentações são caracterizadas por falsas doutrinas e falsas promessas.

A tentação envolve persuasão — uma forma de comunicação. Essa comunicação é diferente da causação, e ela não comporta em si mesma o poder da causação. Satã persuadiu Eva a pecar, mas ele não causou o pecado de Eva, pois só Deus detém o poder de controlar a alma humana. Satã tentou Jesus da mesma forma. Ele não poderia fazer Cristo pecar, mas se diz acertadamente que ele tentou Jesus. Portanto, Satã é o tentador, mas não o autor do pecado. A Bíblia o chama de “pai” da mentira, mas o faz em um sentido relacional, pois já se sabe que Satã é apenas uma criatura. Ele é o representante principal do pecado, mas isso não equivale a dizer que ele conta com o poder de causar o pecado em sentido metafísico, pois só Deus detém o poder de causar qualquer coisa neste último sentido.

Certa vez uma pessoa desafiou este entendimento ao se recusar a reconhecer a distinção entre comunicação e causação. A interação comigo foi muito confusa, pois ele aplicava com firmeza as ideias de tentação e persuasão como se elas sempre fossem bem-sucedidas. Para ele, a conclusão era: se Deus não é o tentador, então ele também não pode ser o autor do pecado. No entanto, se ele estiver correto — caso devamos identificar a comunicação com a causação, e a tentação para pecar com a causa do pecado — então ele deve rejeitar o relato bíblico da tentação de Cristo. A Bíblia diz que Satã tentou Jesus, mas ele não pecou. Todavia, se a tentação (persuasão para pecar) deve ser identificada com a causação para que a tentação sempre seja bem-sucedida, então Jesus pecou quando foi tentado, ou ele nunca foi tentado. Pelo fato de essa pessoa sustentar uma definição tão peculiar e estranha sobre a tentação, ele deve dizer que Jesus é pecador ou a Escritura é uma mentira e, assim, se declarar não cristão e se consignar ao fogo do inferno.

Satã mentiu para Eva, e em vez de se apegar à ordem de Deus, ela sucumbiu e comeu do fruto proibido. Ela deu dele a Adão que, mesmo sem ser enganado, também comeu do fruto. Desse modo o homem e a mulher pecaram e, quando o fizeram, passaram por uma mudança e também tiveram o relacionamento com Deus alterado. Como Deus predisse, o espírito deles morreu de imediato — a luz divina se extinguiu — e seu corpo também pereceu com o passar do tempo.

Quando ouviram Deus andando no jardim, eles se esconderam dele. Este é um insight tremendo. A partir daí, todos os pecadores inventaram métodos sofisticados de escapar dessa realidade, ainda que o motivo e o propósito básico permaneçam os mesmos. Eles sentem terror de Deus, e desejam se esconder dele, mas são estúpidos e desonestos demais para admitir essa impossibilidade. Podem ter se tornado ruidosos e confiantes, mas no interior do coração são como franguinhos amedrontados que correm para se ocultar. Eles se apegam à incredulidade, religiões falsas e diversos sistemas de pensamento e estilos de vida para lhes aliviar o medo, calar a consciência e manter a aparência de que realizam algo bom ou espiritual.

Nossa mensagem aos não cristãos começa com isto: Deus é o criador e regente da humanidade, e você tem transgredido o mandamento dele, e com certeza morrerá. Reclame o quanto quiser, mas ele virá acertar as contas com você. Ele vem para pegá-lo e puni-lo. Você pode correr e se esconder, mas ele sabe onde você está e o que fez. Ele o lançará no lago de fogo, de acordo com sua justiça perfeita, e o fará sofrer uma dor extrema e sem fim. Então você gritará, mas não haverá auxílio nem escape. Você implorará pela morte, mas ai de você: já está morto. Ó, não cristão fraco e estúpido, você não pode se salvar. Ó incrédulo, condenado às chamas! Você não deve esperar. Hoje é o dia da salvação. Existe apenas um escape da condenação. Você o deseja? Você o aceitará?


2010/06/29

Não existe sinegismo real

Vincent Cheung

[Mensagem recebida por e-mail:] Em sua Teologia sistemática você afirma que a santificação é sinergística, pois nós cooperamos com Deus, ainda que ele seja a causa de nossos atos, a causa de nossas boas obras. Nesse sentido, porém, não podemos dizer que a conversão também é sinergística? Não estou falando a respeito da regeneração ou da justificação, mas a respeito do ato de crer. Pois, ainda que Deus seja o autor e a causa da nossa fé, nós a exercitamos, como na santificação. Não seria melhor dizer que mesmo nossa santificação é monergística?

Usemos o xadrez como analogia. Todas as têm suas limitações, mas conquanto nos concentremos na ilustração provida pela analogia, ela poderá ser útil.

Existem dois “níveis” de realidade no jogo de xadrez: 1) As ações dos jogadores, e 2) As relações entre as peças de xadrez. Se falarmos a respeito do nível 2, então “cavalo captura peão” faz sentido. Todavia, quando o dizemos, com certeza não afirmamos que o cavalo move a si mesmo e remove o peão do tabuleiro. Presumimos que o cavalo não possui o poder inerente de mover-se, e que o jogador causou o movimento. Contudo, enquanto falamos sobre o que ocorre no nível 2, não é preciso mencionar o jogador, ainda que ele seja necessário para compor o quadro todo. No entanto, assim que o tópico é alterado para o nível 1, a fim de debater a causa, então “cavalo captura peão” não faz nenhum sentido como descrição da causa, por não ser uma descrição da causa. Deve-se falar a respeito do jogador.

Agora para aplicar essa analogia ao nosso tópico, acresçamos umas poucas coisas ao jogo de xadrez: A) Suponha que as peças de xadrez sejam de fato sensíveis — seres inteligentes com percepção, processos reflexivos e sentimentos. B) Suponha que qualquer coisa que ocorra no tabuleiro, qualquer ação associada às peças de xadrez, deva ser causada por completo pelo jogador. Isso inclui os pensamentos e os sentimentos das peças de xadrez. C) Suponha que algumas ações realizadas pelo jogador nas peças de xadrez envolvam a percepção das peças de xadrez, e outras ações não.

Admitindo-se B, é concebível que não nos interessemos pela distinção dos dois tipos de ações em C. Supondo, porém, que nos interessemos em fazer a distinção, então poderemos chamar o primeiro tipo C1, e o segundo tipo C2.

Estamos prontos agora para aplicar a distinção ao tópico da soberania e salvação pertencentes a Deus.

Se o tópico for metafísica, ou causação, então termos como “sinergismo” e “causa secundária” não fazem sentido. São desprovidos de significado e inúteis. Quando o tópico principal é a soberania divina, fala-se de fato sobre metafísica, sobre causação. Isso significa que eu me oponho à doutrina tradicional sobre a questão. É absurdo dizer que a soberania divina não suprime “a liberdade ou contingência das causas secundárias”, ou o contrário: que a estabelece. É evidente que a liberdade e a contingência são suprimidas. Elas, e a própria ideia das causas secundárias, são completamente destruídas e perdem seu significado.

Se o tópico disser respeito às relações entre os objetos criados, então o termo “causa secundária” ainda não fará sentido, pois se a discussão estiver limitada a esse nível, a “causa” de fato não será “secundária,” e o que é “secundário” não constituirá a “causa”. Poucas vezes (ou de forma mais exata, raramente) uso o termo para acomodá-lo à tradição (para que as pessoas saibam do que estou tratando, ainda que o termo por si só seja sem sentido... Assim fico pensando se alguém sabe do que estamos falando…) — à qual não tento eliminar por completo, ainda que fosse difícil alguém me acusar se eu tentasse fazê-lo. Seja como for, normalmente estabeleço as qualificações para evitar a confusão excessiva.

Meu uso do termo “sinergismo” também serve para a acomodação à tradição. Deve existir alguma forma de distinguir C1 de C2. Todas as coisas são causadas por Deus; no entanto, a eleição e a justificação, por exemplo, não estão associadas a qualquer percepção ou sensação no homem, ao passo que a santificação — como a resistência à tentação, ou mesmo mover os lábios para orar — envolvem certo esforço consciente, alguma percepção e sensação do ser humano. (Note que também uso na Teologia sistemática a consciência do esforço como motivo para distinguir a santificação.) Em C2, até o esforço e a percepção são causados de forma direta por Deus, de tal forma que em sentido metafísico, o homem de fato não contribui nem coopera — as criaturas jamais contribuem ou cooperam em sentido metafísico, apenas em sentido relacional.

Assim se assegura alguma forma de distinção entre justificação e santificação. Não obstante, sua pergunta suscita a questão se o sinergismo é o melhor termo para descrever essa distinção, pois a ideia de “energia” está envolvida, e o homem de fato não contribui com qualquer energia inerente para cooperar com Deus. Mesmo a “energia” depositada no homem deve ser posta em movimento por Deus para exercer sua função. Na santificação, Deus faz o homem cooperar com os preceitos divinos enquanto gera a percepção do esforço nele.

Com relação à necessidade da distinção entre conversão e santificação, percebo seu ponto, mas a distinção deve ser feita. Isso acontece porque na santificação (p.ex. quando alguém resiste à tentação), a pessoa já conta com a fé, entretanto, quando a pessoa é convertida, ela recebe a fé — não há nenhum esforço espiritualmente benéfico no ato de recebê-la. Pode-se afirmar, nos termos da causação, que não há diferença — todas as coisas são causadas de forma direta e única por Deus. No entanto, existe uma diferença nos termos da relação entre os seres criados. Na santificação, Deus já instilou a disposição benevolente no homem, e lhe faz ter consciência dos próprios esforços.

O ponto de partida é a inexistência de sinergismo real em qualquer ação empreendida pelas criaturas; no entanto, caso precisemos de uma palavra para assinalar a distinção entre os dois tipos de acontecimentos causados por Deus — um sem a percepção humana, o outro com a percepção humana — então “sinergismo” é uma opção, ainda que seja indiscutivelmente imperfeita e enganosa.


2010/06/24

Algo de que eu sempre preciso me lembrar…

Andy Smith


A religião se concentra em regras.
O cristianismo se concentra em um relacionamento.

A religião tem compromisso com a prática religiosa.
O cristianismo tem compromisso com uma Pessoa.

A vida centrada na lei produz desespero e orgulho.
A vida centrada em Cristo produz gratidão e adoração.

O legalista procura obter o favor de Deus.
O cristão procura viver para Deus porque Jesus o colocou em uma posição favorável diante de Deus.

A religião promove o ego.
O cristianismo promove Cristo.

A religião se concentra em “não faça”.
O cristianismo se concentra em "Cristo fez".

A religião procura receber louvor alheio.
O cristianismo procura render louvor a Cristo.

O legalista obedece à lei.
O cristão apenas segue Cristo.

A religião está enraizada na honra do ego e assim produz ramos infrutíferos.
O cristianismo está enraizado em Cristo e assim produz o fruto do Espírito.

O legalismo é em última instância egoísta e trabalha contra a igreja.
O cristianismo é em última instância altruísta e trabalha a favor da igreja.

Que Deus se agrade em nos averiguar o coração: não sejamos legalistas religiosos, mas cristãos que exaltam a Cristo! Vemos a vida cristã como uma série de sinais de trânsito que nos dizem o que não fazer, ou vemos o cristianismo nos conduzindo à cruz de Jesus Cristo, dizendo-nos o que Cristo fez por nós?


2010/06/23

Qual é o propósito?

Vincent Cheung


[Texto de um e-mail recebido:] Caso você insista que homens e mulheres são eleitos por Deus para a vida eterna ou para a morte eterna, então não há nenhum propósito no evangelismo.

Como ocorre com todos os desafios contra as doutrinas da soberania e eleição divinas, esta objeção popular é de fácil contestação. Ela é também muito triste, pois a objeção revela a atitude sinistra que se encontra no coração dessa pessoa, algo que ela provavelmente se recusaria a declarar em termos explícitos.

Quem suscita esta objeção acaba por afirmar que se encontra longe de Deus e que não o respeita. Ela revela uma atitude que declara: “A menos que meu papel seja tão grande e determinante quanto o de Deus, não vejo nenhum propósito em fazer o que ele me ordena realizar. A menos que minha desobediência contribua de forma direta e necessária para a condenação eterna — faça uma pessoa queimar no inferno para sempre — a obediência a Deus é desprovida de sentido”. Eu tinha mais temor de Deus que isso mesmo antes de me tornar cristão; ficaria muito aterrorizado para me alinhar com algo semelhante a isso.

Em todo o caso, essa objeção é usada por muitos, se não pela maioria, dos que se dizem cristãos, mas resistem às doutrinas da soberania divina e eleição divinas, e isso nos diz o que eles pensam de fato acerca de Deus. Eles de reúnem todas as semanas para adorar um Deus cujos mandamentos considerariam despropositados no momento em que descobrissem que ele detém mais controle do que essas pessoas supõem, e que ele de fato independe delas para realizar seus planos. Como diz o ditado: “Com amigos como esses...”.

Que Deus tenha misericórdia de seu povo.


2010/06/03

Deuteronômio 30.19


Vincent Cheung

Pergunta: "Como você responde à pessoa que usa o versículo abaixo com o objetivo de afirmar o livre-arbítrio como conceito bíblico?

"Tomo hoje os céus e a terra por testemunhas contra vocês, de que lhe tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolha, portanto, a vida, para que você viva e também sua descendência" (Dt 30.19).

Resposta: E onde se diz nele que a escolha é livre?


2010/05/13

A ceia do Senhor: mistificada e miniaturizada

Vincent Cheung

Três conjuntos de versículos estão ligados à ceia do Senhor. O primeiro procede dos evangelhos sinóticos: Mateus 26.26-29, Marcos 14.22-25 e Lucas 22.14-20. O segundo é 1 Coríntios 11.20-34 e o terceiro provém de João 6.53-57.

A última passagem mencionada é comumente incluída na exposição da doutrina; contudo, é muito improvável que ela se refira à ceia do Senhor e, por isso, deve ser excluída. Robert Reymond apresenta quatro motivos.* Primeiro, o contexto não se enquadra. Jesus dirigia-se a pessoas que jamais teriam entendido a referência a uma ordenança ainda não instituída. Segundo, “carne” não é a palavra usada por ele mais tarde ao instituir a ordenança. Terceiro, suas palavras são absolutas e dizem respeito à salvação. É impossível que, para obter a salvação, Jesus tenha requerido a participação de uma ordenança sem a ter instituído. E na verdade, o ensinamento bíblico é que a pessoa obtém a salvação antes de participar da ordenança. Quarto, o contexto enfatiza a audição de suas palavras e a crença nelas (v. 63), de modo que comer sua carne e beber seu sangue são mais bem compreendidos como metáforas da aceitação de seus ensinos.

Para ilustrar o quarto ponto, Jesus chamou a si mesmo de pão do céu, ou maná (Jo 6.30-40); no entanto, essa designação referia-se à nutrição espiritual mediante a fé nele, e não à obra da expiação simbolizada pelo pão partido. Ele destaca esse ponto no contexto: “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna” (v. 40). Desse modo, seria um equívoco identificar o pão da nutrição como o pão da ceia.

Portanto, a doutrina neotestamentária da ceia do Senhor subsiste principalmente nos versículos sinóticos e paulinos.

A doutrina reformada da ceia do Senhor é indubitavelmente superior à abominação do catolicismo. Mesmo assim, ela possui problemas peculiares. Ainda que menos severos, eles continuam mantendo a tradição e a superstição dos homens acima do ensino nítido da Escritura. É claro que eles não se resumem à tradição reformada. Alistarei aqui dois deles.

Primeiro, a ceia do Senhor tem sido mistificada. Isso se vê em dois aspectos da doutrina reformada: a presença “real” e a nutrição espiritual associada aos elementos. A formulação de Calvino é indefinida e ininteligível, e até mesmo absurda. Como Reymond destaca, Charles Hodge a considerava “peculiar”, e William Cunningham disse que ela era “tão ininteligível quanto a consubstanciação de Lutero” e “talvez, o maior defeito na história dos labores de Calvino como instrutor público”. Robert Dabney denunciou-a como “estranha” e “não apenas incompreensível, mas também impossível”.** Talvez o próprio Calvino tenha percebido essas dificuldades, recorrendo, por fim, à designação de mistério — desculpa favorita dos teólogos reformados para afirmar algo que são incapazes de defender, ou que não podem descrever de modo inteligível.***

Em todo o caso, o obstáculo definitivo é que os versículos sinóticos e os paulinos não mencionam ou indicam qualquer tipo de presença ou nutrição procedente da ceia do Senhor. Não há base bíblica para elas. Elas parecem ter sido elaboradas apenas para romantizar a ordenança e dar-lhe piedade mística. Dessa maneira, a formulação de Calvino não pode ser salva. Assim, as variantes reformadas que sustentam esses dois aspectos da formulação perpetuam o absurdo.

Segundo, a ceia do Senhor foi miniaturizada. Os versículos sinóticos indicam que a ordenança foi instituída no contexto de uma refeição completa. Os versículos paulinos afirmam que a ceia era servida em quantidade suficiente para satisfazer a fome de uma pessoa e até para embebedar alguém. O apóstolo ordenou que os crentes esperassem uns pelos outros antes de comer, ou se estivessem com muita fome, que comessem em casa (1Co 11.20,21,33). Isso não faria sentido se a ordenança consistisse apenas em cálices diminutos e pequenos pedaços de pão ingeridos em poucos segundos.

A ceia do Senhor é uma figura da festa junto à mesa do Mestre. Nas culturas orientais e, com menos intensidade, em algumas culturas ocidentais, jantar com alguém é sinal de amizade, e indicação de rejeição a recusa em comer com alguém (1Co 5.11). Sentar-se à mesa do rei era uma honra tremenda (2Sm 9.7), e apenas seus amigos e companheiros mais queridos alimentavam-se junto dele. Na ceia do Senhor, os cristãos se sentam à mesa do Rei — independentemente de raça, status ou sexo — para comer e beber em sua honra, recordando seu sacrifício por nós, e em antecipação de sua volta. Esta união, por virtude de seu compromisso com o Rei dos reis, é mais forte que os vínculos sanguíneos, e a mesa provê o contexto para a manifestação e desenvolvimento desse compromisso.

Tudo isto se obscurece quando a ordenança é reduzida a uns calicezinhos e pedacinhos de pão. Perdem-se a refeição completa junto à mesa, a comunhão íntima, a alegria e o riso, o consolo, o encorajamento e a recordação cabal durante várias horas de conversa sobre o que o Senhor fez. Todos os debates concernentes aos elementos limitam-se em significado enquanto se discute sobre cálices e pães, pois durante todo esse tempo não se menciona a ceia real, e toda a prática tem se tornado menos bíblica, mais ritualista e sem sentido do que as pessoas imaginam.


* Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Thomas Nelson, 1998), p. 963-4.
** Reymond, p. 961.
*** Vincent Cheung, Blasphemy and Mystery.


2010/05/03

Quem é Satã?

[Irmãos, dentre os textos mais curiosos que já li sobre o tema (sim, li muito lixo, muita heresia e algumas coisas boas, outras provocativas), considero o texto abaixo instigante à reflexão.]


Quem é Satã?

Pergunta:

Caro rabino Singer,

Em novembro de 1996, quando você esteve em Buffalo (NY, EUA), no período adicional de perguntas e respostas, indagaram sua opinião sobre os anjos, e especificamente sobre Satã. Fiquei aturdido com sua resposta, e ainda mais surpreso pelo fato de os demais rabinos presentes não terem participado do debate.

Em sua explicação sobre Satã e os outros anjos caídos, você atribuiu a criação do mal a D-us, tornando-o assim responsável pelo mal. Há pelo menos 87 referências à santidade de D-us apenas em Levítico! Em [Lv]11.44 D-us diz: “Eu sou Santo”. A santidade não significa a ausência de pecado? Existem muitas passagens das Escrituras que comprovam o ódio de D-us pelo pecado (mal), e sua intolerância para com ele em sua presença. Então, como se pode atribuir o mal a D-us? Interesso-me pela base bíblica que apoia sua afirmação.

Possuo um entendimento razoável do judaísmo e jamais li nada que considerasse sua conceituação algo tradicional.

À espera de sua resposta,

Alguém que procura a verdade.

Resposta:

Os rabinos mencionados por você passaram a vida toda imersos no estudo das Escrituras judaicas e também da literatura religiosa do judaísmo; desse modo eles não ficaram “aturdidos” pelo judaísmo ensinado em Buffalo naquela noite, como aconteceu com você.

Por que os rabinos não ficaram desnorteados por esses ensinos judaicos a respeito de Satã? Porque as Escrituras hebraicas declaram de forma explícita que o Todo-Poderoso dispõe o bem e o mal, criados por ele, diante da humanidade a fim de conceder o livre-arbítrio à sua criação primordial. Lê-se em Deuteronômio 30.15: “Vê: eu [Deus] coloquei diante de ti neste dia a vida e o bem, a morte e o mal”.

Em Isaías 45.7, o profeta descreve o plano da criação divina ao relatar: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”.

Eu não inventei esses versículos, tampouco os adulterei. A bem da verdade, a tradução que usei nas citações acima é a King James Version, uma versão da qual não se pode afirmar, sem alguma dificuldade, que se trata de uma aliada da fé judaica.

Esses versículos edificantes destacam um ensino bíblico fundamental: o equilíbrio espiritual perfeito entre o bem e o mal no mundo que confronta toda alma indagadora. Esse é o plano divino e soberano do Todo-Poderoso para a criação: obtém-se a virtude pela decisão pessoal de se desviar do mal e escolher o bem.

Isaías 45.7 e Deuteronômio 30.15, porém, apresentam um problema teológico considerável para os cristãos que afirmam não ser Deus o criador de Satã, o anjo do mal. Segundo a doutrina cristã, Satã era um anjo da patente mais elevada que, mediante um ato de desafio espiritual e desobediência sem reservas, tornou-se o principal adversário e caluniador de Deus, e a personificação do mal neste mundo. Na teologia cristã Deus jamais criou o mal; ele é apenas o autor da justiça e da perfeição, como você assevera em sua pergunta. Portanto, Deus jamais teria criado algo tão sinistro quanto o próprio diabo. Em vez disso, a impiedade obstinada de Satã resulta de sua rebelião espiritual.

Apesar de esta doutrina cristã bastante disseminada possuir muito em comum com o dualismo pagão do zoroastrismo persa — do qual nasceu —, ela é totalmente estranha aos ensinos da fé judaica e às palavras das Escrituras judaicas. De fato, o ensinamento cristão de que Satã foi projetado originariamente por Deus para ser um anjo bom, mas, em um ato de desafio absoluto, deixou de agir como Deus o planejou, sugere que Deus tenha criado algo imperfeito ou defeituoso.

Para a crença judaica, o propósito expresso no fato de Satã seduzir o homem e afastá-lo de Deus não causa nenhum problema, pois Satã é apenas um agente divino. Como servo do Todo-Poderoso, Satã cumpre fielmente a vontade divina de seu Criador enquanto realiza todas as suas tarefas.

Satã é um dos muitos anjos mencionados na Bíblia. O equivalente hebraico da palavra anjo é mal’akh (“mensageiro”). O mesmo significado é atribuído à palavra portuguesa por derivar-se do vocábulo grego angelos, que também significa “mensageiro”. Em toda a Bíblia, anjo significa o mensageiro de Deus que cumpre a vontade do Todo-Poderoso. Inexiste exemplo nas Escrituras judaicas em que qualquer anjo, incluindo-se Satã, que se oponha à vontade de Deus.

Em nenhuma parte da Bíblia isso é mais evidente que no livro de Jó. No primeiro capítulo, Satã surge com os outros anjos diante de Deus e sugere que a fidelidade constante de Jó não suportaria a dor em nível pessoal e a destituição completa. Satã, a seguir, pede a Deus uma chance para testar a virtude de Jó. O Todo-Poderoso lhe concede o pedido, mas delineia de forma meticulosa a linha de atuação de Satã — o que ele pode e não pode fazer — ao testar Jó. Satã, obediente, segue as instruções de seu Criador. Jó é provado de imediato e, no terceiro capítulo, sua luta tem início. Ele questiona o Criador por sua existência e, em um momento de desespero, expressa vocalmente o desejo de ter perecido no ventre de sua mãe. Contudo, ao fim desta narrativa bíblica sem igual, a virtude de Jó prevalece sobre o tormento incessante causado por Satã.

Ao passo que o triunfo espiritual e pessoal de Jó seja uma impossibilidade teológica em termos cristãos, em termos judaicos ele se destaca como a incorporação do programa divino de salvação da humanidade. Em Deuteronômio 30.15, a Torá atesta esse princípio e em Isaías 45.7, o profeta reverbera essa passagem ao declarar que o Todo-Poderoso cria o mal.

Entretanto, esse princípio bíblico é aparentemente muito problemático para os tradutores cristãos da versão bíblica NIV (New International Version). Eles, é claro, reconheceram que a declaração da Bíblia de Deus criando o mal questiona um dos ensinamentos mais acalentados da cristandade sobre a salvação. Como a igreja pode insistir na depravação total do homem quando o seu Deus o colocou livre no mundo para escolher entre o bem e o mal? Como a igreja sustém a doutrina da eleição e da predestinação se o livre-arbítrio é uma expressão legítima do ser humano? Como os cristãos podem afirmar que Deus não criou o mal se as Escrituras judaicas dizem com toda a clareza o contrário?

É compreensível que os tradutores da NIV tenham achado por bem alterar as palavras do profeta ao verterem a apalavra hebraica ofensiva ra' por “calamidade” no lugar de traduzi-la de forma correta por “mal”. Assim, a versão bíblica NIV traduz de modo equivocado Isaías 45.7: “Eu formão a luz e crio as trevas, trago prosperidade e crio a calamidade; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”.

O vocábulo “calamidade” inserido pela NIV é tão ambíguo que o leitor menos preparado poderia chegar com facilidade à conclusão de que ele se refere a terremotos e furações. Este entendimento distorcido, criado pela tradução errada da NIV, oculta com eficácia a mensagem original de Isaías. Como já mencionei, a KJV (King James Version) traduz este versículo de maneira correta e verte a palavra hebraica ra' por “mal”.

E aqui está o ponto final. Muitas vezes os cristãos apontam para Isaías 14.12 como a referência bíblica para apoiar seus ensinos sobre a queda final e irreversível de Satã, que deu fim à carreira pregressa, longa e bem-sucedida desse anjo caído. Alegam que a menção de Isaías à “estrela da manhã” se refere ao destino de Satã, no tempo do fim, quando ele será lançado no lago de fogo, como está escrito no capítulo 20 do livro do Apocalipse.

Há, porém, dois problemas sérios com essa afirmação. Primeiro: se os cristãos afirmam que a “estrela da manhã” é uma referência a Satã, como explicar Apocalipse 22.16 — texto em que Jesus também é chamado a “estrela da manhã”? Em segundo lugar, mesmo a leitura superficial do capítulo 14 de Isaías revela que a “estrela da manhã” mencionada em Isaías 14.12 é uma referência a Nabucodonosor, o ímpio rei de Babilônia, e não a Satã. Em 14.4, o profeta nomeia de modo explícito o rei de Babilônia como o objeto da profecia: “Então proferirás este provérbio contra o rei de Babilônia, e dirás: Como já cessou o opressor, como já cessou a cidade dourada!”.

Em todo este capítulo de Isaías, e também no anterior a ele, o profeta prediz o surgimento e a ruína desse rei arrogante que usaria seu poder desenfreado para saquear Jerusalém e destruir o templo; contudo, perto do seu fim, sofreria uma queda cataclísmica. Em 14.12, Nabucodonosor é comparado ao planeta Vênus, pois sua luz ainda é visível durante a manhã e sumindo, porém, com o nascer do sol. À semelhança da luz de Vênus, o reino de Nabucodonosor brilhou de forma intensa por um breve período — como predisseram os profetas —, sendo mais tarde eclipsados pela nação de Israel, cuja luz perdurou e sobreviveu a essa nação arrogante que a atormentou e exilou.

Atenciosamente,

Rabino Tovia Singer

2010/04/07

Cura divina?

Wagner Antonio de Araújo

O sofrimento do próximo causa-nos dor, e quando o próximo é tão próximo (membro da própria igreja), então choramos com ele e com sua família.

Indigna-nos o fato de que, infelizmente, a mentira continue a ceifar muitos corações e mentes. Essa pergunta sempre surge (somos humanos): "E se levarmos a pessoa até o Apóstolo, será que tal pessoa seria curada?" "E se o arrastarmos até aquela tal igreja, o Senhor o curará?"

É trágico, é terrível, é revoltante o que os falsos profetas fazem acreditar, que o "deus deles" é "poderoso", que "há um deus na vida deles" (e não na nossa), que são "profetas de Deus" (e nós falsos profetas). Se acham poderosos, invencíveis, se consideram superdotados pelo Espírito Santo, são os espertalhões da boa-fé popular.

Em cada mil fracassos na esperança de cura eles pinçam um que deu certo (e daria certo em qualquer circunstância, fosse em casa, no hospital, no trem ou na igreja, pois na soberania de Deus Ele iria curar tal pessoa), e o transformam em carro-chefe de suas supostas "credenciais apostólicas", de que lá há cura e há "deus". Outros, mais abundantes ainda, "ganham cachês" para exibirem muletas que nunca usaram, cadeiras de rodas de que nunca precisaram, fracassos financeiros e milagres de prosperidade que nunca aconteceram senão em sua suposta "fé".

Valem-se da dor e da miséria da alma dilacerada pela dor e a utilizam como meio de arrecadação de fundos fazendo da tragédia elemento de propaganda e de divulgação de seus ministérios mentirosos e enganadores.

Meu Deus, como é fácil cair em tentação! Como é fácil trocar a verdade por um mísero prato de lentilhas, por um côvado a mais na existência terrena! Como é fácil negar a fé quando o câncer apodrece os ossos de quem amamos, destrói as imunidades de quem tanto prezamos ou ameaça separar-nos das pessoas de quem gostamos!

Eu desafiei, desafio e desafiarei a TODOS os supostos curandeiros, a acompanharem-me ao hospital do câncer, na ala dos terminais, daqueles que já perderam braços, pernas, órgãos internos, visão, fala, audição, cérebro, a curá-los ALI, TODOS, pelo seu suposto dom apostólico. Nenhum deles até hoje aceitou. E jamais aceitará. O hospital de gente quase morta não é palco para suas performances pirotécnicas de feiticeiros evangélicos. Na verdade o que menos importa é o enfermo; o que mais importa é o que a suposta cura gerará: fama, dinheiro, poder, crescimento do império religioso, egolatria, etc.

Deus cura. E como cura! Suas curas são completas e totais, até que nós cumpramos o Seu propósito. Ele o faz quando quer, como e onde quiser, e utiliza quem quiser para realizá-la, desde que a glória seja dEle, pois não reparte Sua glória com mortal nenhum. Aliás, na ECONOMIA de Deus não há necessidade de toalhinhas, copos com água, arruda, sal, varinhas, rosas, pedras, águas de 7 torneiras ou qualquer outra feitiçaria. Deus cura diretamente no objeto da cura. Afinal, o poder é dEle e não do elemento. E o faz para a glória dEle, não para a glória do orador. E se no passado fez lodo da terra, Ele jamais ensinou a orar com lodo, ou se a sombra de apóstolos curava, nunca o foi porque os apóstolos determinaram, e jamais se utilizaram disso para reivindicar poderes que não tinham. Aliás, eles também adoeciam (e não se auto-curaram).

Se Deus não quiser curar Ele não curará. Ele é soberano. O texto sobejamente utilizado como "legalidade e exigência total para a cura divina", o famoso "colocar Deus na parede" ("Ele levou sobre si as nossas enfermidades") não serviu para Paulo em sua enfermidade ótica, nem para Timóteo em sua enfermidade estomacal, nem para Eparfrodito em sua fraqueza física e nem para todos os cristãos do primeiro século em suas mortes reais (nenhum teve gozo de perfeita saúde para sempre; doutra forma estariam vivos e sadios até hoje). O texto era (e foi) sinal para o período do Ministério do Messias, que qual pastor amoroso, cuidou de Seu rebanho, tratando de suas feridas. E foi dessa forma que o Evangelho o citou, como cumprido ali, em Jesus, em seu ministério messiânico. Ele sofreu as nossas dores, levou as nossas enfermidades (Jesus curava, Jesus consolava, Jesus era de fato o Messias esperado).

Crentes ficam doentes. Neopentecostais ficam doentes. Crentes de qualquer espécie adoecem e morrem. E por quê? Porque "se este tabernáculo terrestre se desfizer" (e ele se desfará quer queiram ou não!), "temos um outro, não feito por mãos, eterno, no Céu". O Reino de Deus não é deste mundo temporário. Este mundo passará. Tudo aqui passará. O que chamamos de nosso hoje será de outros amanhã. Só a alma é nossa, aliás, em termos, pois se não a entregarmos a Cristo, ela será ceifada por Satanás.

Prometer cura aos enfermos é o mesmo que prometer imortalidade aos mortais. O evangelho jamais foi a mensagem de cura para o corpo, mas de salvação para a alma. Se há no decorrer da vida uma cura física - e há muitas! não há promessa específica de imortalidade física, mas há a promessa de imortalidade da alma e da ressurreição dentre os mortos. Fomos enviados a pregar a salvação da alma, não a cura para os enfermos. Devemos orar, clamar, suplicar, implorar a Deus pelos enfermos; mas não devemos transformar um ato intrínseco à fé na própria mensagem da fé. A fé não vem pelo curar, mas pelo ouvir, e o ouvir a Palavra de Deus.

Mentem os que afirmam curar os enfermos. Mentem! Eles também adoecem e morrem! Todos eles irão morrer! Mas dizem a verdade os que pregam a mortalidade do corpo, mas a ressurreição da alma. Se alguém, de fato, é usado por Deus na cura dos enfermos, jamais dirá "eu orarei e Deus curará", mas dirá "eu orarei e suplicarei a misericórdia do Senhor; se Ele o quiser curará". É isso que nos ensina a Escritura Sagrada.

Àqueles que querem crer na mentira Deus permite a operação do erro, já que não dão crédito à verdade. Daí os supostos milagres comprobatórios. Há milagres entre esses mentirosos? Há. Assim como há milagres geradas por supostas imagens milagrosas, pedras esotéricas, espíritos nos médiuns ou poder do pensamento positivo. Entre a Palavra de Deus e um milagre a nossa fé deve estabelecer-se na Palavra de Deus, ainda que contrarie um milagre. Os escolhidos não se enganam com supostas maravilhas. E os escolhidos são os que escolheram crer no Senhor que ressuscitará os mortos incorruptíveis, não que mumificará os mortos corruptivelmente.

De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro (inclusive a cura de todas as suas enfermidades) se irá morrer e cair no Inferno? Que graça barata foi essa? A de Deus? Jamais.

Como disse John Stott, crer também é pensar.

E eu penso nas coisas lá do Alto, aonde a morte nunca chegará.

Vida eterna. Esse é o âmago.


2010/03/10

Cada dia é uma nova experiência...


"Comece bem a manhã agradecendo a Deus por este dia maravilhoso. Lembre que para o crente cada dia é uma experiência com a gloriosa graça divina, apesar das circunstâncias! Talvez você esteja desempregado, um ente querido esteja morrendo de câncer, ou você esteja apenas passando por um dia em que tudo dá errado. Isso passará. E tudo isso é apenas para o bem de quem ama a Deus (Rm 8.28)".

(Postado na página do Facebook de Predestinarian Network.)

2010/03/09

Ainda lhe resta esperança, filho de Deus!


Charles Haddon Spurgeon

"Cristão! Não há travesseiro mais suave que o da providência! E quando a providência parece adversa, ainda assim creia nela, e coloque-a sob a cabeça. [...] Ainda lhe resta esperança, filho de Deus! O grande dissabor que lhe sobrevirá no caminho da sua p...eregrinação é planejado pelo amor, o mesmo [...] amor que se interporá como seu protetor."


(Frase traduzida pelo amigo Marcos Vasconcelos e postada no Facebook em 6/3/2010.)

2010/03/07

Gordon Clark e o supralapsarismo


O supralapsarismo, insistente em certa ordem lógica entre os decretos divinos, é em essência, ao que nos parece, o ponto de vista inquestionável do controle divino e proposital do universo. Deus age com um propósito. Ele tem um fim em vista e o contempla desde o começo. Todo versículo da Escritura que de uma forma ou outra se refere á multiforme sabedoria de Deus, toda declaração indicativa de que uma ocorrência anterior objetivava causar um acontecimento subsequente, toda menção ao plano eterno e abrangente contribui para a conceituação teleológica e, portanto, supralapsária do controle divino sobre a história. [...] A conexão entre o supralapsarismo e o fato de Deus sempre agir propositalmente depende da observação de que a ordem lógica de qualquer plano é exatamente o contrário de sua execução temporal. O primeiro passo de qualquer planejamento é o objetivo a ser alcançado; decidem-se então os meios [para obtê-lo], até que a última [decisão] do que se fará seja a primeira a ser descoberta. A execução no tempo inverte a ordem do planejamento. Assim, a criação, por ser a primeira [decisão] na história, deve constituir, pela lógica, o último dos decretos divinos.

(Texto transcrito pelo irmão Robert Higby no texto The Two Seeds.)

2010/03/06

A verdadeira felicidade


John Brown


A felicidade do ser humano consiste no auxílio e na imagem de Deus, na comunhão com ele, em conhecê-lo, amá-lo e ser amado por Deus, em saber que somos amados por ele, em venerá-lo, em confiar em Deus, em ter a mente conformada à sua mente, os desejos submissos ao seu prazer, em pensar e desejar como ele, em escolher o que ele escolhe, em buscar e achar prazer no que ele se compraz.

Esta é a vida, esta é a felicidade!

2010/02/06

Soberania divina e autocompatibilidade


(Este é um excerto da futura edição [inglesa] revisada de Questões últimas.)


Vincent Cheung

O Deus soberano contradiz a ideia de que o homem exercita o livre-arbítrio no que diz respeito a qualquer assunto, incluindo-se a salvação. A soberania divina e a liberdade humana são mutuamente excludentes. Afirmar uma delas significa negar a outra. Por consequência, a pessoa que insiste em ter aceitado Cristo por causa do livre-arbítrio, e não por causa da escolha soberana de Deus e de sua ação direta na alma, é incapaz de asseverar ao mesmo tempo o Deus soberano. Pelo fato de o único Deus apresentado na Bíblia ser absolutamente soberano, a pessoa que assevera o livre-arbítrio humano é incapaz de sustentar a crença em Deus sem contradição.


Alguns teólogos percebem esse dilema, e dessa forma escolhem crer em uma contradição. No entanto, isso faz com que pareçam estúpidos, e alguns deles não conseguem tolerar a humilhação. Assim eles inventam uma saída, e dizem que a soberania de Deus é “compatível” com a escolha humana. Às vezes afirmam até que a soberania divina é compatível com a “liberdade” humana no sentido de que o homem não é coagido ao fazer uma escolha, e sim que ele escolhe de acordo com o próprio desejo.*

É claro que o homem faz escolhas, mas o que o leva a escolher? Qual é a metafísica da escolha humana? E qual é a explicação metafísica do seu desejo? Se Deus é totalmente soberano, então ele também decide e causa a escolha e o desejo humanos. E se Deus é quem decide e causa a escolha e o desejo do homem, logo dizer que a soberania divina e escolha humana são compatíveis equivale apenas a afirmar que Deus é compatível consigo mesmo. Mas já sabemos disso, e o homem ainda não é livre.

A escolha humana é irrelevante, pois ela surge debaixo da soberania divina. Dizer que o homem não é coagido implica apenas em declarar que nesse caso Deus não faz um efeito do seu poder se chocar com outro efeito do seu poder, como acontece quando ele faz dois objetos colidirem. Contudo, se não há contradição quando Deus faz dois objetos colidirem, então mesmo a coação não acarreta nenhuma contradição. Isso poderia significar apenas que ele faz uma pessoa desejar uma coisa e escolher outra, enquanto o próprio Deus permanece compatível consigo mesmo. Qual seria o problema com isso?

De fato, a soberania absoluta de Deus e a responsabilidade moral do homem são compatíveis. Talvez seja por isso que os teólogos estejam tão incomodados. No entanto, o homem é moralmente responsável apenas pelo fato de Deus ter decidido fazer com que ele preste contas de seus atos. Isso não possui ligação necessária com a escolha ou a liberdade. Nem mesmo a coação elimina a responsabilidade. O que uma tem que ver com a outra? A responsabilidade moral do homem depende da soberania absoluta de Deus, e de nada mais. Portanto, dizer que o home é responsável, mais uma vez, significa afirmar apenas que Deus é compatível com ele mesmo.

Então permanece a incompatibilidade entre a soberania divina e a liberdade humana. Para que o homem seja livre em qualquer sentido relevante, ele deve ser livre de Deus, e se ele for livre de Deus em qualquer sentido e grau, Deus não é então totalmente soberano. Rejeita-se o Deus da Bíblia.


*Refiro-me à doutrina do compatibilismo. Ela ensina uma forma de liberdade humana e apoia a responsabilidade moral nessa liberdade. Já a refutei ao demonstrar que o tipo de liberdade ensinado por ela é irrelevante ao debate sobre a soberania divina, e que não há relação necessária entre a liberdade e responsabilidade. De fato, a Bíblia nega esse relacionamento. (V. Vincent Cheung, O autor do pecado.)

Alguém afirmou que eu representei essa doutrina de forma equivocada ao declarar que ela assevera um tipo de liberdade humana e que ela lança a responsabilidade moral sobre essa liberdade. Essa pessoa disse que a doutrina apenas declara que a soberania divina é compatível com a escolha humana, e que por isso o homem não é coagido, mas escolhe de acordo com o próprio desejo. E indicou John Frame como representante dessa doutrina — e dessa forma como uma pessoa cuja visão eu representei erroneamente.

Assim, citaremos John Frame. Ele escreveu no livro Free Will and Moral Responsibility: “Um conceito alternativo à liberdade, coerente com a teologia reformada e sustentado por um número de filósofos […] é chamado com frequência ‘compatibilismo’, pois com base nele, o livre-arbítrio e o determinismo (o conceito de que todos os acontecimentos na criação são causados) são compatíveis. O compatibilismo afirma de maneira simples que a tomar decisões morais, somos livres para fazer o que quisermos, par seguirmos nossos desejos. […] A teologia reformada reconhece que todas as pessoas contam com a liberdade na acepção compatibilista. […] Creio que a liberdade compatibilista é o tipo principal de liberdade necessária à responsabilidade moral”. Frame afirma de modo explícito que o compatibilismo ensina uma forma de liberdade, e ela é imprescindível à responsabilidade moral.

A pessoa que me acusou de representar equivocadamente também disse que o compatibilismo não assevera que o homem é livre de Deus, como escrevi. Ele me entendeu mal. Compreendo que o compatibilismo não declara o homem livre de Deus, e por essa razão é irrelevante. Meu ponto é a impossibilidade da existência de qualquer tipo de liberdade que preconize a liberdade de Deus, e qualquer tipo de liberdade que não preconize a liberdade de Deus é irrelevante. O fato de o homem não ser coagido também é irrelevante, pois sendo Deus soberano, é ele quem causa o desejo e a escolha dos seres humanos.

Quanto à minha posição, digo que a soberania divina e liberdade humana são incompatíveis e mutuamente excludentes, e pelo fato de Deus ser soberano, o homem não é livre. Aparentemente, a pessoa que me acusou gostaria de debater sobre este ponto, mas não soube como proceder. E não há como fazê-lo. Talvez a confusão tenha sido alimentada pela recusa em aceitar que sua doutrina acalentada tenha sido apresentada tão facilmente como algo ridículo e irrelevante.


2010/02/03

Deus imputou pecados aos eleitos no Messias?

Robert Higby

1a. De que modo a doutrina da imutabilidade divina estaria em risco caso houvesse alguma mudança na imputação das criaturas?

A imputação diz respeito a como Deus avalia, considera, responsabiliza ou justifica as criaturas. A questão aqui é a coerência da imutabilidade divina em relação à criação e redenção. Se Deus propusesse a transcendência do tempo e do espaço para criar uma alma distinta de todas as outras, a menos que seu propósito e disposição no que diz respeito a essa alma sejam coerentes em todos os momentos do tempo — uma vez que o próprio tempo é criado —, Deus teria proposto a alteração de sua disposição em algum momento histórico.

1b. Por que Deus não poderia imputar o pecado aos eleitos e então imputar a justiça do Messias a eles em algum momento posterior, de acordo com sua retidão perfeita e imutável e vontade onipotente e soberana?

Porque isso tornaria a disposição divina para com as criaturas sujeita à lei de tempo e incoerente em momentos diferentes da história. Se a vontade soberana de Deus é onipotente e sua justiça imutável, não há nenhuma circunstância histórica capaz de mudar-lhe o propósito ou a disposição em relação a qualquer criatura.

2. Se Deus não imputa o pecado aos eleitos — em nenhum momento e medida. Isso significa necessariamente que Deus imputa a justiça do Messias aos eleitos desde a eternidade? Eles podem se encontrar em um estado de inimputabilidade ou neutralidade?

Com base nas considerações já feitas, a resposta é sim para a primeira pergunta e não para a segunda. O Deus infinito nunca sofre variações em sua infinita disposição de amar, salvar e imputar a justiça proposta no Messias a seus eleitos transcendente de tempo. Reter a imputação da justiça do Messias de forma a colocar os eleitos em um status temporariamente “neutro” implicaria a mutabilidade da paixão infinita de Deus ou do desejo dele salvar ao longo do tempo. A imputação diz respeito à disposição divina, ou seja: como ele considera as criaturas; isso nunca muda.

3. Se os eleitos contam com a justiça do Messias eternamente imputada a eles, qual o significado (caso haja) da justificação pela fé e da justificação mediante a morte e ressurreição de Jesus?

A justificação é tridimensional:

  1. Eterna como o propósito soberano de Deus (Rm 8.28ss);

  2. Historicamente constituída, ratificada, estabelecida e absolutizada na pessoa e obra do Messias a todos os eleitos de maneira coletiva (Rm 5.12-21);

  3. Historicamente declarada a cada eleito de forma individual, ao mesmo tempo em que Deus lhe concede fé (Rm 3.20-31; Rm 4).
 O fato de Deus declarar o status de justificado das pessoas eleitas historicamente no Messias (mesmo com esse status não declarado em momentos anteriores) não altera de maneira nenhuma a disposição divina em relação à justificação e imputação relativas a todos os eleitos em todos os momentos no tempo e transcendentes a ele.