2010/01/11

A blasfêmia do dualismo

— Excerto de Reflections on Second Timothy

Vincent Cheung

Existe um Deus, e nós somos sua criação. Certamente ele não é apenas um poder metafísico, mas também uma inteligência pessoal. Ao pensar sobre Deus, os cristãos enfatizam o fato de ele ser uma pessoa; contudo, não raro pensam nele apenas parcialmente como um poder. Eles o chamam de poderoso, e até destacam sua onipotência, mas batem na própria boca — e também no rosto de Deus — quando tentam distanciá-lo de ser a causa direta, total e única (em sentido metafísico) de todo o mal. A implicação é a existência de outro poder metafísico que reorganiza o universo de forma constante sem o controle imediato de Deus. Afirmam anda que esse poder funciona pela permissão divina, mas este é o ponto máximo dos termos do envolvimento dele.

O resultado é uma forma de dualismo — o conceito da existência de duas forças absolutas, controladoras do universo — uma benigna e a outra maligna —, e que se encontram em conflito constante. Esta é uma heresia condenada pelos teólogos cristãos, mas difundida por eles mesmos com uma variação. É notório que esta forma de dualismo não afirma a igualdade dos dois poderes, e sim que a força maligna está sujeita à “vontade permissiva” da força benigna, e esta promulga “decretos permissivos” para regular todas as operações da força maligna. No entanto, a força benigna não exerce controle direto sobre toda a criação, e por uma razão não explicada, apesar de a força benigna apenas “permitir” que a força maligna cause o mal, a força maligna é estúpida o suficiente para cumprir a agenda da força benigna ao realizar o mal necessário, da forma precisa e no grau permitido. Em momento nenhum a força maligna se abstém — nem em sinal de desafio à força benigna.

De forma evidente, toda essa teoria é absurda, mas ela é afirmada de alguma forma por diversas escolas de teologia, incluindo-se todas as versões do calvinismo, que afirma honrar a soberania divina absoluta. No entanto, essa forma popular de calvinismo é totalmente falha, e se refugia em paradoxos e contradições. Os inimigos zombam de suas construções ridículas, ainda que eles mesmos sustentem conceitos mais fracos acerca da soberania divina. A única visão condizente com a revelação bíblica e a razão necessária — além de evitar o dualismo—, é a que afirma que Deus exerce o controle metafísico completo, ativo, direto e causativo (não permissivo) sobre toda a criação, incluindo todas as instâncias do mal. Deus é o autor do pecado e do mal. Inexiste dificuldade com este conceito por não haver lei divina proibitiva de ser Deus o autor do pecado e do mal, e Deus é a própria definição da justiça; portanto, Deus é sem dúvida o autor do pecado e do mal.

Apesar de os teólogos pensarem em Deus como pessoa, falham ao concebê-lo como o poder total, a única força capaz de criar qualquer coisa, suster todas as coisas, e realizar todas as alterações no universo — ao passo que nós, criaturas, não somos capazes nem de transformar a cor do cabelo (Mt 5.36). Não concebem Deus como o poder total que também é uma pessoa total, mas não como algo mais que uma pessoa muito poderosa. Desse modo, aplicam-lhe de pronto a ética humana, e o julgam como julgam a si mesmos — negando-lhe a divindade. Em todo o caso, se Deus não for o poder total, haverá um tipo de dualismo. Contudo, sendo Deus de fato o poder total, e existindo o mal no universo, então, por necessidade metafísica e lógica, Deus deve ser o autor do pecado e do mal. Não há escape desta conclusão. Algo menos que isto é blasfêmia contra a natureza e a majestade do Altíssimo. Esta blasfêmia é a tradição acalentada por quase toda a cristandade.