Robert Higby
1a. De que modo a doutrina da imutabilidade divina estaria em risco caso houvesse alguma mudança na imputação das criaturas?
A imputação diz respeito a como Deus avalia, considera, responsabiliza ou justifica as criaturas. A questão aqui é a coerência da imutabilidade divina em relação à criação e redenção. Se Deus propusesse a transcendência do tempo e do espaço para criar uma alma distinta de todas as outras, a menos que seu propósito e disposição no que diz respeito a essa alma sejam coerentes em todos os momentos do tempo — uma vez que o próprio tempo é criado —, Deus teria proposto a alteração de sua disposição em algum momento histórico.
1b. Por que Deus não poderia imputar o pecado aos eleitos e então imputar a justiça do Messias a eles em algum momento posterior, de acordo com sua retidão perfeita e imutável e vontade onipotente e soberana?
Porque isso tornaria a disposição divina para com as criaturas sujeita à lei de tempo e incoerente em momentos diferentes da história. Se a vontade soberana de Deus é onipotente e sua justiça imutável, não há nenhuma circunstância histórica capaz de mudar-lhe o propósito ou a disposição em relação a qualquer criatura.
2. Se Deus não imputa o pecado aos eleitos — em nenhum momento e medida. Isso significa necessariamente que Deus imputa a justiça do Messias aos eleitos desde a eternidade? Eles podem se encontrar em um estado de inimputabilidade ou neutralidade?
Com base nas considerações já feitas, a resposta é sim para a primeira pergunta e não para a segunda. O Deus infinito nunca sofre variações em sua infinita disposição de amar, salvar e imputar a justiça proposta no Messias a seus eleitos transcendente de tempo. Reter a imputação da justiça do Messias de forma a colocar os eleitos em um status temporariamente “neutro” implicaria a mutabilidade da paixão infinita de Deus ou do desejo dele salvar ao longo do tempo. A imputação diz respeito à disposição divina, ou seja: como ele considera as criaturas; isso nunca muda.
3. Se os eleitos contam com a justiça do Messias eternamente imputada a eles, qual o significado (caso haja) da justificação pela fé e da justificação mediante a morte e ressurreição de Jesus?
A justificação é tridimensional:
Eterna como o propósito soberano de Deus (Rm 8.28ss);
Historicamente constituída, ratificada, estabelecida e absolutizada na pessoa e obra do Messias a todos os eleitos de maneira coletiva (Rm 5.12-21);
Historicamente declarada a cada eleito de forma individual, ao mesmo tempo em que Deus lhe concede fé (Rm 3.20-31; Rm 4).
O fato de Deus declarar o status de justificado das pessoas eleitas historicamente no Messias (mesmo com esse status não declarado em momentos anteriores) não altera de maneira nenhuma a disposição divina em relação à justificação e imputação relativas a todos os eleitos em todos os momentos no tempo e transcendentes a ele.