Robert Higby
Introdução
Este artigo defenderá a necessidade de uma base confessional mais ampla acerca da predestinação segundo o Evangelho que a comumente definida pelos 5 pontos do calvinismo. O calvinismo reducionista de 5 pontos (TULIP) foi formulado como resposta aos Cinco artigos (de 1610) dos remonstrantes (seguidores de Jacó Armínio). No momento da assembleia, quando o Sínodo de Dort formulou o TULIP, o tema da contradição dos cinco artigos foi preeminente para dar continuidade a qualquer semelhança com o que havia ocorrido na Reforma. Apesar de o Sínodo de Dort ter obtido uma grande vitória a favor da verdade do evangelho em seus dias, a pertinência dessas conquistas é quase completamente ignorada hoje. O surgimento do evangelicalismo — com os ensinamentos muitíssimo populares de Andrew Fuller — destruiu em grande parte o impacto prático do Sínodo de Dort. Ainda permanece uma adesão confessional insincera na correção dos cinco pontos do TULIP, pois durante séculos os calvinistas reformados eliminaram a predestinação de todos os acontecimentos em sentido absoluto, positivo, duplo e causativo. Elas aceitam os arminianos como irmãos plenos em Cristo e coparticipantes do evangelho. Isso acontece por causa do ensino comum dos dois grupos a respeito da doutrina da predestinação passiva do pecado (sem causá-lo). As duas vertentes compartilham e promovem as doutrinas do amor geral de Deus, graça comum, o mero conhecimento de antemão da rebelião — permissivo e não causador —, e a livre oferta do Evangelho aos réprobos.
A posição apresentada aqui é designada “8 pontos da predestinação segundo o Evangelho”, e não “calvinismo de 8 pontos”. Já é o tempo de a defesa da verdade (2Pe 1.12) basear-se na autoridade da revelação da Palavra de Deus no Evangelho apostólico, e não nos escritos de qualquer expositor bíblico do passado — meste tendo este adotou alguma forma do conceito da predestinação. Alguns usam o nome de agostinismo para descrever alguns conceitos professos a respeito da predestinação. Quão preparados estamos para ter nossas convicções designadas pelo nome de Agostinho? Tampouco elas devem receber o nome de Calvino ou de qualquer outro mestre que tenha exposto ensinamentos cismáticos ou antievangélicos.
Os 5 pontos são uma tentativa de esclarecer o desenrolar plano da salvação no contexto do tempo. Entretanto, essas declarações confessionais são fracas no que tange ao tema mais amplo de como a salvação e a reprovação foram concebidas e implementadas a partir da perspectiva divina que transcende ao tempo. Assim precisamos de uma expansão dos pontos fundamentais relacionados ao passado a fim de incluir a realidade maior de como Deus se relaciona em caráter pessoal com a determinação da história da redenção — desde sua concepção no tempo até a eternidade futura. A adição dos pontos do supralapsarismo (Supralapsarianism — S), da justificação eterna (Eternal Justification — E) e do decreto ativo (Active Decree — A) aos cinco pontos históricos do TULIP proverá uma base nova e mais abrangente para a defesa da verdade do Evangelho nas gerações futuras. Estes artigos apresentarão uma confissão acerca da predestinação segundo o Evangelho que rejeitará de modo permanente, e se oporá, ao fullerismo e às heresias antirreformadas.
Supralapsarismo
Durante séculos os mestres do “calvinismo” têm se unido ao coro arminiano no cântico sobre o caráter extremamente complicado da diferença entre o supralapsarismo e o infralapsarismo. Diz-se que ela constitui algo ininteligível ao membro comum da igreja. Existe uma única explicação possível para este fenômeno: os mestres reformados odeiam a ensino supralapsário e não desejam que sua essência seja conhecida e adotada. A diferença é simplesmente etimológica. Supralapsário significa “superior” (anterior) ao lapso; infralapsário significa “inferior” (posterior) ao lapso. O “lapso” é referência ao grande pecado de Adão (humanidade) no jardim do Éden. A questão diz respeito ao propósito divino da redenção ou da condenação de todo descendente de Adão: ele contempla e admite o lapso e a culpa associada da humanidade para a condenação como uma realidade já estabelecida? Caso a resposta seja “sim”, então o propósito divino da graça é infralapsário. Se for “não”, então o propósito divino da graça é supralapsário.
A posição infralapsária se baseia no conceito agostinista da “queda” dos anjos e da humanidade do estado de perfeição e de livre-arbítrio autônomo (cf. A cidade de Deus, O enchiridion). Apesar de muitos infralapsaristas afirmarem que a queda foi determinada de alguma maneira por Deus, eles são unânimes em asseverar: 1) Adão foi criado completamente livre de qualquer impulso de rebelião, e 2) Adão escolheu com seu livre-arbítrio autônomo se rebelar contra Deus, a despeito de não possuir nenhuma tendência ou desejo de se rebelar. Agostinho em A cidade de Deus também expõe com muitos detalhes sua doutrina de um Satanás criado originariamente com perfeição absoluta e que se rebelou sem nenhuma propensão para fazê-lo. Essa interpretação não foi desafiada por católicos romanos e protestantes até o dia de hoje. O Paraíso perdido (de John Milton) agraciou-nos com toda uma obra baseada nas especulações de Agostinho. É importante destacar que os acadêmicos contemporâneos não encontram essas doutrinas no judaísmo do segundo templo. No contexto da discussão sobre os ensinos de Cunrã acerca da universalidade do pecado humano, Daniel Falk observa:
… nas Hodayot não havia especulação sobre a origem da natureza pecaminosa dos seres humanos. Em vez disso, os pontos dessas declarações no contexto dos hinos servem para destacar a insignificância humana diante de Deus. [Editors D.A. Carson, Peter T. O’Brien, Mark A. Seifrid, “Justification and Variegated Nomism”, Vol. 1: The Complexities of Second Temple Judaism, Baker Academic, Grand Rapids, 2001, p. 28.]
Essa conclusão apenas exemplifica o pressuposto não questionado da doutrina agostinista do pecado original — como única conclusão possível para qualquer estudante da revelação divina, agora ou em qualquer tempo passado. No entanto, a doutrina, em qualquer exposição sistemática, era desconhecida antes de Agostinho; havia apenas fragmentos de pouca similaridade em diversos escritos sectários. Falk percebe com nitidez sua ausência nos manuscritos de Cunrã e se recusa a admitir a doutrina alternativa da origem do mal claramente ensinada neles. Em 1QH Col. 6—Col. 12 e 1QS Col. 3—Col. 4, a origem do pecado em todo espírito (de anjos ou humanos, eleitos ou não eleitos) é claramente atribuída à criação direta de Deus com o fim de exaltar sua glória.
A doutrina da queda dos anjos e o homem caíram de seu estado originário de perfeição absoluta é um paradoxo total. Ele não pode ser explicado racionalmente, de modo que as contradições inerentes a ele são consideradas “mistérios” e não se permite a nenhum ser humano inquiri-las. A conclusão resultante é uma teologia da predestinação paradoxal — o infralapsarismo — que promove uma síntese inexplicável da preordenação divina e o livre-arbítrio (autônomo) humano.
Outro ensino que conduz o cristianismo institucionalizado ao campo infralapsário é o conceito de “satisfação” decorrente da expiação de acordo com o ensino de Anselmo. Ele é adotado integralmente por católicos romanos e protestantes. A diferença entre “satisfação” e “propiciação” é crucial para entender o contexto do infralapsarismo versus o supralapsarismo. A teoria da satisfação ensina que Deus deve a expiação realizada por Cristo à lei externa a si mesmo, e cujas demandas ele deve satisfazer. Em contraste, a propiciação (Rm 3.25; 1Jo 2.2; 4.10) no NT significa apenas que Deus propôs aplacar a sua ira justa contra a rebelião e o pecado de seus eleitos ao executar sua ira contra si mesmo ma pessoas de Jesus Cristo. Os propósitos de Deus não objetivam satisfazer algum tipo de lei eterna que governe suas ações; em vez disso, eles são direcionados ao exercício da graça em Cristo a favor dos quais ele propôs criar indignos — para a exaltação de sua graça! Nos propósitos eternos de Deus, a graça é superior de todas as formas à lei. A lei foi criada por Deus no tempo para aumentar o conhecimento do pecado e intensificar a culpa associada à rebelião contra ele (Rm 5.20). Não é que Deus deva qualquer de suas ações ao infralapsarismo é um terreno escorregadio que se rende à teoria arminiana do livre-arbítrio e em última instância redunda em puro ceticismo. Se Deus estabeleceu a origem do pecado para exaltar sua graça na redenção dos eleitos e sua ira na condenação dos réprobos, a doutrina infralapsária sucumbe com os ensinos da “queda” do Adão perfeitamente justo e a teoria da expiação como satisfação. O ensino supralapsário da soberania divina absoluta na dispensação da graça e da ira — que transcende qualquer bem ou mal previsto na criatura (Rm 9.6-24) — é a única conclusão possível para os que amam a verdade do Evangelho.